Carlo Ancelotti minimiza a pressão popular e afirma se divertir com a polêmica sobre a convocação de Neymar.
O atacante do Santos é o centro dos debates às vésperas do anúncio oficial dos 26 jogadores da Seleção Brasileira, que acontece nesta segunda-feira (18), às 17h.
O sentimento não é uma vaidade pela decisão aguardada por todo o país, mas sim mais uma prova do que ele tem dito a várias pessoas: o Brasil tem uma relação especial com a seleção nacional.
Desde que foi contratado, em maio do ano passado, Ancelotti tem mergulhado nas particularidades do Brasil e nada o impressiona mais do que a equipe ser vista como um patrimônio nacional.
Em entrevistas, ele reforça esse pensamento e afirma que “nenhum país dá tanta importância ao time nacional como o Brasil”.
Para a convocação desta tarde, a grande expectativa está em cima de Neymar. Desde 2002, quando Luiz Felipe Scolari optou por não chamar Romário, nenhum treinador sofreu tanta pressão pela convocação de um jogador como o italiano tem enfrentado.
Cobranças de influenciadores, campanhas na internet e até lobby de outros atletas marcaram as últimas semanas, situação que o treinador trata como “divertida”.
“Eu tenho prazer e uma paixão por desfrutar deste momento que vivo por comandar a seleção mais importante do mundo. Mas isso eu não vejo como pressão. Todo mundo tem falado agora da convocação, mas é como aquela história da montanha. Todo mundo fala, mas eu sozinho é quem tomo a decisão. Isto é bem divertido”, afirmou o treinador à reportagem.
Carlo Ancelotti tem muitos motivos para justificar a alegria neste primeiro ano no comando da seleção brasileira.
Diferente da rotina diária de clube, ele tem uma carga de trabalho mais reduzida e pode dividir o seu tempo entre o Rio de Janeiro e Vancouver, no Canadá, onde vive com a esposa Mariann.
O ambiente da seleção brasileira também tem encantado o treinador. Conhecido mundialmente por priorizar a boa relação com os atletas, ele revela que não teve dificuldades para trabalhar com um grupo de jogadores de outra nacionalidade.
“O que eu vi neste período na seleção é que o ambiente de trabalho é muito bom. Isso é uma coisa que eu gostei muito de trabalhar com a seleção. Todos falam o mesmo idioma e têm a mesma cultura. Em clubes não é assim”, comentou.
Ainda segundo Ancelotti, “quando você tem esse ambiente como nós temos, o trabalho fica mais fácil para poder agregar todos os jogadores para que eles possam falar, brincar e fazer coisas juntos. Em um clube é muito mais difícil ter esse ambiente de união, de harmonia”.
O técnico de 66 anos é um dos mais vitoriosos do futebol mundial, com títulos nacionais na Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália, além de ser o maior vencedor da Liga dos Campeões, com cinco taças.
Após deixar o Real Madrid em maio do ano passado, Ancelotti assinou com a seleção brasileira até o fim da Copa do Mundo de 2026 e já estendeu o acordo até 2030.
O contrato com a CBF se tornou o cenário ideal para o italiano.
Além de buscar o hexacampeonato, ele também poderá conquistar o título mundial que não conseguiu como jogador.
As condições de trabalho oferecidas pela CBF também dão ao treinador uma tranquilidade e liberdade que ele nunca teve no futebol.
Quando era técnico do Milan, ele convivia diariamente com Silvio Berlusconi, empresário bilionário, dono do clube e ex-primeiro-ministro da Itália.
O treinador já admitiu várias vezes que o dirigente tentava interferir no trabalho, pedindo mais atacantes.
A lista de dirigentes poderosos com quem trabalhou é extensa.
No Chelsea, foi contratado por Roman Abramovich, empresário russo que figurava entre os homens mais ricos do mundo.
No Real Madrid, trabalhou ao lado de Florentino Pérez, presidente histórico do clube espanhol.
Ancelotti também lidou com famílias de forte influência política e econômica.
Entre 1999 e 2001, comandou a Juventus, clube administrado pela família Agnelli, dona da Fiat.
Na França, treinou o PSG, controlado pela família real do Catar.
Apesar do peso dessas figuras, Ancelotti não teve dificuldades nos relacionamentos e soube administrar cada situação sem deixar o trabalho ser afetado.
A única exceção aconteceu na Alemanha, quando treinou o Bayern de Munique e enfrentou problemas com figuras históricas do clube, como Karl-Hein Rummenigge e Uli Hoeness.
“Eu prestava contas a várias figuras importantes. Era difícil saber quem tinha mais poder”, escreveu o treinador em seu livro “O Sonho”.
“Não é preciso um presidente errático ou um dono imprevisível para acionar a guilhotina. Acionistas corporativos também sabem fazer isso. Foi a demissão mais impiedosa da minha carreira”, completou.
No Brasil, Carlo Ancelotti não precisa se preocupar com interferências da alta cúpula da CBF.
Eleito presidente no ano passado, Samir Xaud não interfere no trabalho do treinador e do departamento de futebol profissional.
Diferente dos outros dirigentes com quem Ancelotti trabalhou, Xaud tem uma trajetória curta no futebol.
Foi eleito vice-presidente da Federação de Roraima em 2022, estado que não possui equipes nas três principais divisões do futebol brasileiro.
Próximo da convocação, Samir Xaud tem sido questionado sobre Neymar e afirma que nem ele sabe qual será a decisão do treinador.
O dirigente recebeu cobranças de pessoas próximas e dirigentes para interceder a favor do atacante, sob o argumento de que Neymar traria mais visibilidade e qualidade técnica à equipe.
Mesmo assim, o presidente da CBF ignorou os pedidos e garantiu que não fará interferência no trabalho do italiano.
O único pedido feito pela CBF a Carlo Ancelotti, além de compromissos comerciais aceitos por ele, foi um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em janeiro deste ano.
A reunião, que contou também com Gianni Infantino, presidente da Fifa, fez parte do lançamento da Copa do Mundo Feminina de 2027.
Enquanto não inicia a preparação para a Copa do Mundo, Ancelotti também dedica tempo às gravações de um documentário dirigido por Paolo Sorrentino, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014 por “A Grande Beleza”.
As filmagens começaram assim que ele chegou ao Brasil e têm produção de Chloe Barrena, enteada do treinador.
O documentário mostrará bastidores do dia a dia de Ancelotti com a seleção brasileira e a vida do treinador no país.
Além do Maracanã, onde foi entrevistado, o italiano também foi à praia e tomou banho de mar pela primeira vez desde que assumiu o comando da seleção.
*Com informações de Thiago Rabelo/Folhapress
Tudo a ver:
CBF renova contrato com o técnico da seleção até 2030

