O surf quase não virou esporte olímpico

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Duke Kahanamoku - Nadador Olímpico e Surfista
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Duke Kahanamoku – Nadador Olímpico e Surfista

Hoje em dia pode parecer óbvio que o surf deve estar nas Olimpíadas, mas durante anos, a ideia era considerada impossível, e por muitos surfistas, totalmente indesejável. E essa é uma das histórias mais maneiras do surf e que poucos sabem o que realmente aconteceu.

A jornada que começou há um século

Toda a história começa com Duke Kahanamoku, que como contei na história do surf, espalhou o surf pelo mundo. Duke era medalhista olímpico da natação e já em 1920, começou a defender publicamente que o surf devia estar nos Jogos Olímpicos, e para abrir portas que a maioria dos surfistas não conseguiriam, ele usava a sua fama de nadador.

Infelizmente, a ideia não foi aceita, pois o surf era visto pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) como uma atividade de praia e não um esporte de verdade. Usavam argumentos como: não é possível julgar quem surfou melhor, e que não era possível padronizar um esporte, onde a parte principal, a onda, é completamente imprevisível e diferente a cada momento.Apesar de não concordar com a decisão, esses argumentos legítimos, e o COI não foi convencido pelas respostas dos surfistas e apoiadores.Durante anos, a discussão ficou parada, e enquanto isso, o surf foi crescendo, se profissionalizou e passou a ter seu próprio campeonato mundial, novidades que o COI estava observando e analisando, mas sem se envolver.

ISA e a longa disputa

A virada de chave começou a ganhar forma quando a ISA (Associação Internacional de Surfe) passou a pressionar de forma séria e organizada, pedindo a inclusão do esporte nos Jogos Olímpicos. A estratégia utilizada foi mostrar que o surf agora tinha critérios de julgamento definidos, um sistema competitivo bem estruturado, alcance global e proximidade ao público jovem, algo que as Olimpíadas estava precisando para se inovar.

E o COI não estava desatento, e justamente por isso, o presidente da entidade, Thomas Bach, foi objetivo ao falar sobre a decisão: “Queremos levar o esporte para a juventude, porque com as muitas opções que os jovens têm, não podemos esperar que venham a nós. Temos que ir até eles.” O surf junto com o skate, encaixavam perfeitamente nesse planejamento.Em outubro de 2016, em uma assembleia realizada no Rio de Janeiro, logo após os Jogos Olímpicos cariocas, o COI aprovou por unanimidade a entrada do surf, do skate, da escalada, do beisebol e do karate a partir de Tóquio 2020. Cem anos após Duke Kahanamoku começar a jornada, o surf finalmente chegou aos Jogos Olímpicos.

Mas ainda houve resistência

Essa é a parte da história que poucos contam: a notícia da entrada nas Olimpíadas, não foi tão bem recebida dentro do próprio mundo do surf.

Muitos surfistas importantes torceram o nariz, usando o argumento era um esporte de alma livre, totalmente contrário a o que as Olimpíadas representavam, protocolos, burocracias, bandeiras e rivalidades. Surfar era sobre liberdade, conexão com a natureza, conexão com você mesmo e fugir das regras, e colocar isso dentro de uma arena olímpica, com árbitros julgando as ondas em baterias de 25 ou 30 minutos, parecia ir na outra direção.Entendo o pensamento, mas discordo porque o surf já tinha um circuito mundial profissional há muito tempo, com transmissão ao vivo, patrocinadores e atletas que viviam apenas do esporte. A ideia de que entrar nas Olimpíadas iria “estragar a alma do surf” sempre me pareceu romântica demais, e ignorava a visibilidade que os Jogos poderiam trazer para o esporte, principalmente para pessoas que nunca ouviriam a palavra swell.

Tóquio 2020: a melhor estreia possível para o Brasil

A estreia do surf nas Olimpíadas, aconteceu na Praia de Tsurigasaki, em Chiba, no Japão, em julho de 2021, adiada um ano por conta da pandemia. E o Brasil mostrou para que veio e já estreou ganhando medalha.

Ítalo Ferreira, de Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, conquistou o ouro masculino de uma forma inusitada e que só ele conseguiria: quebrou a prancha logo no início da primeira bateria da final, saiu rápido da água, pegou a prancha do seu treinador, voltou para o pico, venceu as baterias e se tornou campeão olímpico. Um roteiro de Hollywood.Do outro lado,  Carissa Moore ganhou o ouro feminino representando o Havaí, completando uma estreia histórica para o esporte.Em Paris 2024, o surf foi disputado dessa vez nas ondas de Teahupo’o, no Taiti, a mais de 15 mil quilômetros de Paris, a maior distância já registrada entre a sede olímpica e o local de uma prova. Nessa etapa Tatiana Weston-Webb, a brasileira-havaiana, levou a prata para o Brasil, se tornando a primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha no esporte, e Gabriel Medina, o tri-campeão mundial, conquistou a medalha de bronze, após ótimas perfomances em todas as baterias.

E daqui a para frente, o que esperar?

O surf olímpico ainda no início e o formato atual usa apenas as pranchinhas/shortboards. Porém, as discussões para a inclusão do longboard e de outras modalidades, já começaram e obviamente, tem surfistas reclamando dessas possibilidades, alegando que cada modalidade tem o seu estilo e filosofia, e misturar tudo em uma Olimpíada seria um exagero.

Talvez possa dar errado, mas uma coisa que a história do surf nas Olimpíadas ensinou, é que esse esporte é maior do que qualquer debate sobre o que ele deveria ou não deveria ser. Qual a sua opinião?

Até a próxima! Ihii!

Pedro Bento
@pedrobento28





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