Camila Kfouri, eternamente dentro do sofrido coração corinthiano

Esportes


Camila Orosco Kfouri, filha de Leda e Juca Kfouri, desencarnou na última terça (27)Reprodução Instagram

Eu sou corinthiano desde antes de saber que existia e entender o que é ser e existir. Corinthians é sentimento e pertencimento antes mesmo do nascimento. Como deve ser a sensção de quem torce para o time dos outros. Não é problema meu. Cada um com seu cada um.

O meu cada um é nóis. Nasci com o manto listrado em preto e branco pendurado no quarto da maternidade do saudoso Hospital Matarazzo em 26 de janeiro de 1977, 8 meses e 17 dias antes de o mar se abrir e Basílio libertar o povo sofrido.

Nesses quase 50 anos de sofrimento na Terra de expiação, ocupei vários papéis. Filho e corinthiano, irmão e corinthiano, primo e corinthiano, aluno e corinthiano, cunhado e corinthiano, namorado e corinthiano, ex-namorado e corinthiano, PA e corinthiano, estagiário e corinthiano, marido e corinthiano, repórter e corinthiano, pai do Basílio e corinthiano, divorciado e corinthiano, padrinho do Marcelinho e corinthiano, professor e corinthiano, cachaceiro e corinthiano, abstêmio e corinthiano, exu-prudência e corinthiano, desequilibrado e corinthiano, desempregado e corinthiano, chefe de reportagem e corinthiano, cinéfilo e corinthiano, espírita e corinthiano, colunista do iG e corinthiano, editor de esportes do iG e corinthiano, sempre, em todo e qualquer papela esquerdista, antifascista e corinthiano…

“Corinthiano, maloqueiro e sofredor”, o canto que mais amo, graças a Deus. Não sofro de otimismo. Nem sou o “good vibes” encarnado. Aliás odeio estrangeirismos, odeio a expressão “good vibes”, odeio ver pessoas boas sofrendo e odeio, odeio, odeio, odeio, odeio, 818 vezes odeio. Odeio muito mais do que amo. E odeio o quanto eu amo sofrer pelo Corinthians.

O Corinthians me levou ao jornalismo, o jornalismo me levou ao mundo, me levou a  conquistar o mundo no Japão. Chupa, mundo. Fui apresentado a lugares, conquistas, glórias, vitórias inesquecíveis pelo Corinthians. E todos os muitos momentos felizes e as dezenas de conquistas são incomparavelmente menos frequentes que os não títulos, que as derrotas, que as tristezas, que as dores… Em outras palavras, o sofrimento goleia a alegria. Viver, em preto e branco, é sofrer.

Não vivi, como o pai da Camila, Juca Kfouri, os 23 anos separados pelo Quarto Centenário e o GOL de Deus Basílio. As maiores tristezas, em campo, foram o 12 de junho de 1993 protagonizado por José Aparecido de Oliveira e, sem dúvida, o rebaixamento no Olímpico, em 2 de dezembro de 2007 Derrotas doloridas, verdadeiramente sofridas.

Nasci um pouco mais de ano após o desencarne, com 3 meses incompleto, da minha irmã Olívia. Não sei mensurar a dor do coração são-paulino da minha mãe. Sei que, depois disso, veio eu, veio minha irmã Marília, veio meio irmão Marcos, eu dei o neto Basílio, e minha irmã deu os netos Frederico, Teodoro e… Olívia. Só aí que ouvi minha mãe, dona Maria Dolores, pronunciar a palavra Olívia. É o ciclo da vida, que, na minha fé, continua sempre.

Não sei se o Corinthians, enterrado no Z4, será rebaixado pela segunda vez. Mas sei, sem saber qual é a dor, que não há sofrimento maior que o sentido pelos pais Leda e Juca Kfouri com a passagem de Camila Orosco Kfouri.

Minutos antes de a bola rolar para Corinthians 2×0 Mirassol (gol anotados por Bidu e Kaio César no segundo tempo), estava nervoso, respiração acelerada, irritadiço, preocupado, cuspindo marimbondo, verdadeiramente sofrendo com a perigosa e patética situação do meu clube de coração.

Foi quando, na Sportv, Paulo Andrade anunciou a homenagem póstuma do Corinthians a Camila Kfouri. Pensei no meu Basílio, pensei em todos os pais e mães do mundo, pensei na minha mãe que enterrou a Olívia, e me senti mal por chamar o meu sentimento apreensivo pelo Corinthians de sofrimento.

Não sei se o Corinthians merece escapar nem se vai escapar, mas não tenho dúvida que Camila Kfouri, onde estiver, os pais, parentes e amigos mereciam o  2 a 0, fora o baile. Depois de dez jogos (9 derrotas e 1 empate), o Corinthians presentou Camila com uma vitória. E que vitória. Para o sofrido padrão corinthiano, 2 a 0 é goleada!

Vai, Corinthians. Para onde eu não sei. Mas tenho fé que a Camila foi e está em ótimo lugar. E estará eternamente dentro dos corações verdadeiramente sofridos dos seus e da nação corinthiana.

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Vitão Raiz

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