Vitão sonhava acordado com Dona Beija e queria ser Paulo Gracindo

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Maitê Proença (Dona Beija) e Paulo Gracindo (Antônio Sampaio) em Dona Beija
Arquivo TV Manchete

Maitê Proença (Dona Beija) e Paulo Gracindo (Antônio Sampaio) em Dona Beija

1984.

1984, para o mundo, remete à obra-prima de George Orwell. Para o Brasil decente, 1984 lembra as Diretas Já e a triste derrota da emenda Dante de Oliveira.

1986.

Como eu não sou todo o mundo, como sempre repetiu minha mãe, 1986, à época, marcou-me muito mais que 1984.

1986 teve a Copa do México com Sócrates, o Sócrates do Corinthians e das Diretas Já, meu ídolo, craque que também chorou a vitória dos canalhas e a derrota da emenda Dante de Oliveira.

1986

Inveja é uma palavra muito forte, com uma energia carregada, péssima e imprecisa para expressar o que eu sentia por Gracindo Jr. Não era uma inveja, mas, em 1986, o Alemão, de 9 anos, queria ser, por razões diferentes, duas pessoas.

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Vitor Guedes/Arquivo Pessoal

Vitor Guedes, 9 anos, ala esquerdo do pré-mirim do Corinthians, em 1986

A primeira pessoa que queria ser, não necessariamente na ordem de desejo, era Sócrates. Apesar de ser canhoto e de jogar com a 10, e não ser destro nem camisa 8 como o Doutor, esse meu desejo era mais simples resolver.

Alemão aqui, como todos os meus amigos e parentes me chamavam antes de o jornalismo me rebatizar de Vitão, gritava “Sócrates” quando chutava a bola nas brincadeiras na rua, na praia, nos jogos da escola e no pré-mirim (à época, não chamava sub-10) do Corinthians.

Imaginar ser Sócrates era supimpa, ou da hora, como a gente falava na época nos bailinhos de música lenta. Mas o auge era ser Paulo Gracindo Jr. Ou melhor, o auge era ser como Antônio Sampaio, o nome da personagem vivido pelo ator na novela Dona Beija, que passava no Canal 9, a saudosa TV Manchete.

Time pré-mirim (atletas 1976 e 1977) do futebol de salão do Corinthians, em1986. Vitor Guedes, com cabelo tijela, é o quarto da esquerda para a direita, da fileira de cima. O quinto é Zé Elias, à época, apenas Elias, ou Zezinho para os amigos de Guarulhos
Vitor Guedes/Arquivo Pessoal

Time pré-mirim (atletas 1976 e 1977) do futebol de salão do Corinthians, em1986. Vitor Guedes, com cabelo tijela, é o quarto da esquerda para a direita, da fileira de cima. O quinto é Zé Elias, à época, apenas Elias, ou Zezinho para os amigos de Guarulhos

Ah, Maitê Proença, digo, ah, dona Beija, você me fez descobrir caminhos, direções, orientações… Não era só no futebol que eu era canhoto. Viria a ser, futuramente, como meu ídolo Sócrates, canhoto também na visão de mundo e em todas as mais íntimas e pessoais questões sensoriais.

Tenho certeza que a minha mãe sabia dos meus movimentos, mas fingia não saber para não me constrager e por ter coisas muito mais importantes para se preocupar, como as peraltices da minha irmã Marília, de longe, a mais levada da família. E eu achava (como o meu Basílio, ah, que bobo, achava em relação a mim e a mãe) que a enganava.

Morávamos em um sobrado. Assim que meus pais iam para o quarto, descia a escada sem fazer barulho, entrava na sala sem acender a luz, ligava a TV a cores bem baixinho e rodava o seletor, invariavelmente estacionado no 5, até o 9 na esperança de ver um mamilo ou uma ponta da polpinha da bunda da Dona Beija.

Às vezes, o crime não compensava e não rolava uma mísera palinha de teta. Corinthiano aprende desde a tenra infância que tudo é mais difícil. No entanto, de forma bissexta, por alguns segundos, aquele rosa claro bicudo de Maitê me fazia dormir feliz. Antes de me dirigir pé ante pé para o quarto, voltava o seletor para o 5 para não deixar pistas sobre minha subversão noturna.

Leitores nascidos no século 21 não devem estar entendendo tamanho esforço por tão pouca visão e poucos segundos de deleite. Cabe uma óbvia explicação. Minha geração sobreviveu sem internet e, pois, sem X Videos. Xaveco era analógico e tête-à-tête.

No meu sofrido caso, coitadinho do Alemão, com minha mãe Dolores 9 anos mais nova que a minha tia Irene, era _como sou_ muito mais novo que meus primos (não direi os nomes de Randal, Sérgio e Carlos para não comprometê-los) e herdei de quarta mão versões grudadas de Ele & Ela  e Status. Meu irmão caçula, grande Marcos Caju, 9 anos mais novo que eu, deu sorte que já pegou Playboys seminovas, no máximo de segunda mão…

Grande, Paulo Gracindo. Grande, Maitê. Minha paixão canhota pela Dona Beija só foi superada anos depois, em 1988, 1989. A paixão por Dona Beija foi superada pela minha paixão atemporal da vida toda, pela paixão infinita e eterna pela musa Isadora Ribeiro. Como sou espírita e acredito na importalidade da alma, tenho certeza que manterei essa paixão pelas próximas encarnações.

Nascido no sacro e basílico ano de 1977. Isadora Ribeiro está para a minha geração assim como Alessandra Negrini está para a geração do Caju.

1986. Olha o 1986 aí de novo. Ano que nasceu meu irmão… Não chega a ser Dona Beija, mas o nascimento do Marcos Paulo (como só minha mãe chama o Caju), confesso, também me marcou de alguma forma. Como Paulo Gracindo marcou a minha geração, gerações anteriores e mais novas com a sua arte.

Viva a arte! 

A vida continua! Meus sentimentos aos fãs, familiares e amigos de Paulo Gracindo nesta passagem. E um beijo caprichado na Maitê Proença, razão de o garoto de 9 anos sonhar ser Antônio Sampaio. E eu não posso me queixar de nada: tive uma infância extremamente feliz e saudável.

Paulo Gracindo e Maitê Proença
Reprodução Instagram

Paulo Gracindo e Maitê Proença

PS: 1984, última obra do genial Orwell, foi escrito em 1948 e lançado em 1949

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Vitão Raiz

Eu sou o Vitor Guedes e tenho um nome a zelar. E zelar, claro, vem de ZL! É tudo nosso! É nóis aqui no iG com a coluna Vitão Raiz!

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