conheça o goleiro que virou presidente da República

Esportes


Esse domingo não tem futebol. A bola para de rolar nos gramados do país para que milhões de brasileiros possam votar e escolher quem comandará a República pelos próximos quatro anos. O exercício da democracia entra em campo, enquanto a política toma conta de um dia decisivo para o Brasil.

Futebol e política, no entanto, já dividiram o mesmo campo de jogo de uma maneira pouco comum. Em 1954, um homem que ajudou a fundar um clube e chegou a defender seu gol assumiu a Presidência da República em meio a uma das maiores crises políticas da história brasileira. Seu nome era João Fernandes Campos Café Filho.

Nascido em 3 de fevereiro de 1899, em Natal, Café Filho cresceu quando o futebol começava a ganhar espaço no Rio Grande do Norte. Em 15 de agosto de 1915, participou da fundação do Alecrim, ao lado de outros entusiastas do esporte bretão. O clube nasceu no bairro que lhe deu nome e, com o passar dos anos, passou a dividir a rivalidade local com ABC e América.

Levou dez gols em um jogo e foi substituído

Café Filho não ficou apenas na organização do novo time. Também entrou em campo e defendeu a meta do Alecrim. O futuro presidente atuou como goleiro entre 1918 e 1919, embora os registros fotográficos e as notícias da época sobre suas partidas sejam escassos.

Uma lembrança contada pelo próprio Café Filho dá uma ideia de como foram aqueles tempos. Em sua autobiografia, Do Sindicato ao Catete: Memórias políticas e confissões humanas, publicada em 1966, ele recordou uma goleada sofrida pelo Alecrim diante do América.

“O arqueiro que certa vez me substituiu deixou que os adversários fizessem 12 gols, enquanto eu deixara a bola passar nas traves apenas 10 vezes”, ironizou. O placar terminou em 22 a 0 para o América, um resultado que se transformou em uma das histórias mais curiosas de sua passagem pelo futebol.

Entusiasta do futebol feminino

A ligação de Café Filho com o esporte, porém, não se limitou ao Alecrim. Em 1918, ele também se envolveu com o Centro Esportivo Natalense, no qual ocupou a vice-presidência e ajudou a organizar uma equipe feminina. Foi ali que conheceu Jandira Carvalho, que jogava como volante. Os dois se casaram em 1931, depois de 12 anos de relacionamento.

A participação nessa iniciativa chama a atenção sobretudo pelo período em que ocorreu. Enquanto o futebol feminino ainda enfrentava resistência, Café Filho ajudava a organizar uma equipe em Natal. Anos mais tarde, durante o governo de Getúlio Vargas, o Decreto-Lei nº 3.199, de 1941, impôs restrições à prática esportiva feminina. O artigo 54 vedava às mulheres a prática de modalidades consideradas incompatíveis com sua natureza, restrição que atingiu o futebol.

Longe dos gramados, Café Filho também começava a construir sua carreira. Em 1921, fundou o Jornal do Norte e se dedicou ao jornalismo. Trabalhou ainda como advogado, defendendo trabalhadores como estivadores e pescadores. Essa atuação o aproximou dos sindicatos e dos movimentos que contestavam o poder das oligarquias no Rio Grande do Norte.

Aos poucos, o jornalista e antigo goleiro ganhou espaço na política. Em 1950, elegeu-se vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas. Naquele período, os brasileiros votavam separadamente para presidente e vice-presidente. Por isso, os dois cargos podiam ficar com representantes de correntes políticas distintas.

Posse em cenário delicado da política nacional

Quatro anos depois, a morte de Vargas mudou o rumo de sua trajetória. O presidente enfrentava uma grave crise, pressionado por adversários políticos e setores militares. Na madrugada de 24 de agosto de 1954, Vargas deu um ponto final à própria vida no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Café Filho assumiu a Presidência naquele mesmo dia, conforme determinava a Constituição.

O homem que havia ajudado a fundar um clube em Natal estava agora no comando do país. Não chegou ao cargo por uma eleição presidencial própria, mas pela condição de vice-presidente, em circunstâncias dramáticas que marcaram a história da República.

Sua passagem pelo Palácio do Catete, contudo, durou pouco mais de um ano. Em novembro de 1955, problemas de saúde o afastaram do cargo. A crise política que se seguiu impediu seu retorno, e o Congresso confirmou Nereu Ramos na Presidência até a posse de Juscelino Kubitschek, em janeiro de 1956.

Depois de deixar a Presidência, Café Filho retomou a vida pública. Em 1961, assumiu uma função no Tribunal de Contas do Estado da Guanabara. Morreu no Rio de Janeiro em 20 de fevereiro de 1970, aos 71 anos.



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