
Erin Brooks Canadá
Quando Erin Brooks tinha 14 anos, um vídeo de 53 segundos rodou o mundo do surf, onde ela executou 13 aéreos seguidos com uma naturalidade e facilidade que deixou os melhores surfistas do planeta sem palavras.
Não era uma atleta profissional ainda, era apenas uma adolescente surfando do jeito que gostava, sem pensar no que era esperado de uma garota da sua idade no surf feminino.
Hoje, com 19 anos, Erin Brooks acabou de vencer Teahupo’o e Cloudbreak na mesma temporada, as duas ondas mais pesadas e exigentes do calendário do CT, e todo o mundo do surf começou a fazer a mesma pergunta: ela vai ser campeã mundial antes de completar 20 anos?
Texana, havaiana, canadense
A história de Erin Brooks começa em Boerne, uma cidade pequena no Texas, onde ela nasceu em julho de 2007, e com poucos anos de vida, foi para o Havaí com a família, e foi lá, nas praias de Oahu, que descobriu o surf e nunca mais parou.
Crescer no Havaí/Hawaii dá ao surfista uma relação com o oceano que é difícil de ter em outro lugar, as ondas são difíceis, o nível dos surfistas é altíssimo e a cultura do surf é levada a sério desde cedo. Erin absorveu tudo isso e ainda desenvolveu uma obsessão por aéreos, algo que raramente se vê no surf feminino com a variedade e consistência que ela demonstra.
Mas a parte mais interessante da história de Erin Brooks nem é o surf, é a batalha para competir representando o Canadá.
A batalha jurídica que virou notícia no mundo todo
Erin tem dupla cidadania americana e queria representar o Canadá nas competições internacionais por causa de seus laços familiares, seu pai é cidadão americano-canadense e seu avô nasceu em Montreal. Em 2023, com 15 anos, pediu a cidadania canadense, mas seu pedido foi negado, porque a lei na época limitava a cidadania por descendência à primeira geração nascida no exterior, e o pai de Erin era americano, então ela não se qualificava.
O caso ganhou repercussão internacional, e enquanto isso, Erin continuou surfando e vencendo. Em 2023, foi vice-campeã do ISA World Surfing Games, perdendo a final para Tatiana Weston-Webb, a brasileira que cresceu no Havaí e escolheu representar o Brasil. Dois caminhos parecidos, destinos diferentes.
Em 2024, o Superior Court of Justice de Ontario julgou inconstitucional o limite de primeira geração da lei canadense, então Erin refez o pedido e conseguiu a cidadania. A batalha judicial tinha durado mais de um ano, e hoje ela compete pelo Canadá e carrega a bandeira com orgulho genuíno, não por obrigação.
O estilo que mudou o nível da competição
O que diferencia Erin Brooks de praticamente qualquer outra surfista da história é a combinação de duas coisas que raramente andam juntas no surf feminino: tubos pesados e aéreos radicais. Historicamente, as melhores surfistas do mundo eram divididas entre as que dominavam manobras (curvas, cutbacks, rabetadas,…) e as poucas que conseguiam surfar tubos de alto nível. Aéreos no surf feminino existiam, mas com limitações.
Erin une os dois com uma naturalidade que desorganiza os juízes. Em uma bateria em Teahupo’o, ela mete tubo, em uma onda aberta, vai para o aéreo, e faz isso com 19 anos, com a regularidade de alguém que já passou muitos anos no circuito.
Isso não surgiu do nada, veio de anos surfando no Havaí desde pequenininha, competindo contra meninos mais velhos, assistindo os melhores do mundo surfarem e decidindo que queria fazer o mesmo, sem filtro de “isso é coisa de homem” ou “isso não é o que se espera do surf feminino”.
Teahupo’o, Cloudbreak e uma temporada histórica
Em 2026, primeiro ano completo de Erin no CT, ela venceu as duas etapas mais pesadas da temporada, Teahupo’o no Taiti e Cloudbreak em Fiji, e disparou no ranking feminino. Para contextualizar: a maioria dos atletas passa anos no CT antes de vencer uma etapa, alguns nunca vencem, enquanto Erin venceu duas nos swells mais desafiadores do calendário na mesma temporada, no seu primeiro ano.
Na final do Tahiti Pro, bateu a israelense Anat Lelior em uma bateria que foi apontada como candidata a melhor final feminina da história do circuito. Em Fiji, voltou a dominar numa onda completamente diferente, mostrando que o desempenho em Teahupo’o não foi coincidência de condições favoráveis, foi alto nível de surf.
Tem surfistas que são boas quando o mar favorece o estilo delas, Erin Brooks parece absoluta em qualquer tipo de mar.
Até a próxima! Ihii!
Pedro Bento
@pedrobento28
