
Yago Dora – Full Rotation
Tem uma frase que Kevin Reed disse em 1975, em uma conversa com outros surfistas na Califórnia, sobre a ideia de voar da onda e voltar em cima dela: “Isso é impossível. A física não permite.” Porém, menos de uma década depois, estava sendo feito, e hoje, qualquer surfista do CT que não manda aéreos com consistência não chega perto da elite.
A história do aéreo é a história do surf quebrando seus próprios limites, e de um esporte que, toda vez que achava que havia chegado no teto, descobria que tinha mais um nível para subir.
O que é um aéreo?
Um aéreo (ou aerial, em inglês), é quando o surfista usa a velocidade e a inclinação da onda para projetar a prancha para fora da água, completar uma manobra no ar e aterrissar de volta na face da onda ou na espuma. Parece simples quando descrito assim, mas na prática, envolve leitura precisa da onda, timing perfeito, controle corporal no ar e a capacidade de absorver o impacto da aterrissagem sem perder o equilíbrio, tudo isso em frações de segundo.
Existem dezenas de variações: o aéreo reverso, onde o surfista gira 180° no ar; o full rotation ou 360°, onde completa uma volta inteira; o alley-oop, onde vai para o ar na direção contrária da onda; o rodeo flip, que adiciona uma rotação lateral; e o backflip, que Medina fez pela primeira vez no Oi Rio Pro em 2016.
Como começou
Os primeiros registros de surfistas tentando voar da onda são dos anos 1970, em praias californianas de ondas pequenas e rápidas. A lógica era simples: se você tem velocidade e a borda da onda sobe de forma íngreme, poderia usar isso como uma rampa, mas o problema é que as pranchas da época eram longas e pesadas demais, e sem a reatividade necessária para controlar o que acontecia no ar.
Foi a shortboard revolution dos anos 60, aquela que contei aqui na coluna, sobre Bob McTavish e a serra elétrica, que abriu caminho para o aéreo ser possível. Pranchas menores e mais leves permitiram que os surfistas começassem a experimentar o que acontecia quando voavam da superfície da água.
Nos anos 80, surfistas como Martin Potter e Christian Fletcher começaram a executar aéreos de forma consistente, e Fletcher em particular ficou famoso por uma abordagem quase punk do surf, ia para o ar em ondas que ninguém achava que era possível. Era bagunçado, nem sempre aterrisava, mas a ideia estava sendo provada.
O aéreo nos anos 90 e a revolução Kelly Slater
Kelly Slater entrou no circuito nos anos 90 e adicionou o aéreo ao repertório de manobras de alta pontuação pela primeira vez, o que antes era visto como truque sem necessidade passou a ser visto como arma competitiva. Mas foi a segunda metade dos anos 90 e os anos 2000 que realmente transformaram o aéreo em elemento central do surf de competição.
Surfistas brasileiros tiveram um papel importante nessa evolução, Adriano de Souza, conhecido como Mineirinho, foi um dos primeiros surfistas do circuito a consistentemente pontuar alto com aéreos em condições variadas. A escola brasileira de surf (também chamada de Brazilian Storm), com pranchas mais rápidas, treino em ondas menores e piores, e um estilo mais explosivo, produziu uma geração de surfistas que voava com uma naturalidade diferente.
O aéreo no julgamento
Entender como um aéreo é julgado ajuda a entender por que ele se tornou tão dominante nas competições. O sistema de julgamento do CT pontua de 0 a 10 com base em cinco critérios: comprometimento e grau de dificuldade (1), combinações inovadoras de manobras (2), variedade de manobras (3), velocidade, poder e fluidez (4), e uso do potencial da onda (5).
Um aéreo bem executado, com boa projeção, movimento limpo e aterrissagem controlada, pode pontuar altíssimo em praticamente todos esses critérios simultaneamente, porque é a manobra que combina dificuldade, inovação e impacto visual da forma mais eficiente. Por isso o aéreo se tornou tão importante para os atletas e tem sido usado constantemente, independente das condições.
Erin Brooks e o aéreo no surf feminino
Por décadas, o aéreo foi quase exclusividade do surf masculino nas competições, o feminino evoluía em outros aspectos, tubos, cutbacks e outras manobras, mas o aéreo ficava de fora.
Erin Brooks, a canadense de 19 anos que está dominando o CT feminino em 2026, mudou essa conversa de vez, com uma variedade de aéreos que vai do reverso ao kerrupt (uma combinação de giro e inclinação lateral), ela trouxe para o surf feminino uma dimensão que poucos acreditavam que chegaria tão cedo.
O vídeo dela de 53 segundos com 13 aéreos seguidos, gravado aos 14 anos, foi o aviso que o mundo do surf recebeu e não levou tão a sério, mas que agora leva.
O próximo aéreo impossível
A cada geração, o surf acha que chegou no limite dos aéreos, e a cada geração, alguém aparece fazendo algo que não estava nos planos. O backflip do Medina em 2016 foi o exemplo mais recente, antes dele, um giro de 360° era o limite, e agora já existe um nível acima.
Até a próxima! Ihii!
Pedro Bento
@pedrobento28
