A revolução que cortou o surf ao meio

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Bob McTavish surfando
Ben S.

Bob McTavish surfando

Por décadas, o surf funcionava apenas com pranchas de quase três metros, pesadas, largas e difíceis de manobrar. Os longboards/pranchões, dominavam desde os tempos havaianos, e ninguém questionava, pois era a tradição, era o jeito certo de surfar, até aparecer um australiano teimoso chamado Bob McTavish com uma ideia que todos acharam ser impossível.

O cara que nunca estava satisfeito

Bob McTavish nasceu em 1944 no Queensland, Austrália, largou a escola aos 15 anos e foi trabalhar em uma fábrica de pranchas em Sydney, e aos 19 anos de forma ilegal dentro de um navio cargueiro, foi para o Havaí obcecado em surfar as melhores ondas do mundo, mas cinco semanas depois foi pego e deportado.

Em 1992, Bob foi eleito o shaper mais influente de todos os tempos pela revista australiana Surfing Life, mas antes de conquistar esse título, ele precisou convencer o mundo inteiro que estava certo.

As pranchas da época tinham entre 2,70 e 3,30 metros, pesavam mais de 9 quilos e permitiam basicamente dois movimentos: deslizar sobre a onda ou fazer o hang ten, movimento em que o surfista fica na ponta da prancha com os dez 10 dedos pendurados, por isso hang (pendurar) ten (dez dedos). Mas McTavish queria manobras mais radicais, virar rapidamente e aproveitar mais a parte crítica da onda, algo que as pranchas da época não permitiam.

A Plastic Machine e a virada

Em 1967, trabalhando na Keyo Surfboards, ele shapeou a primeira prancha com fundo em V (a Vee Bottom) e a chamou de Plastic Machine. Era uma prancha de 8.8 pés, com a rabeta mais larga e com formato em V, permitindo que o surfista incline a prancha e faça manobras bem mais rápidas e fechadas.

Mas a novidade não veio do nada, George Greenough, americano e kneesurfer (surfista de joelho), surfava em uma prancha de 4.9 pés, chegou na Austrália alguns anos antes e fazia manobras que deixavam os surfistas de boca aberta.

Bob viu Greenough surfando e quebrando, e decidiu que precisava trazer aquela liberdade de movimento para o surf normal, e assim, começou a fazer a Plastic Machine.

Hawaii e o filme que mudou o surf

McTavish e Nat Young (campeão mundial de 1966) levaram os novos modelos de pranchas para o Havaí e fizeram uma sessão irada em Honolua Bay, no Maui, presente no filme The Hot Generation, de 1968, e essa foi a primeira vez que o mundo viu aquele novo estilo de surfar, um surf rápido e agressivo. O surf deixava de ser sobre elegância e passava a ser sobre radicalidade.

O impacto foi imediato, shapers em todo o mundo começaram a diminuir o comprimento das suas pranchas, e em poucos anos, as pranchas foram de mais de nove pés para menos de sete, uma mudança que pode parecer pequena, mas que muda completamente o jeito de surfar.

A resistência contra a inovação

Como toda novidade, a pranchinha/shortboard enfrentou resistência, os surfistas tradicionais não queriam saber, pois para eles, prancha de verdade era o longboard, como sempre foi.

Alguns chamaram de frescura e outros de retrocesso, mas o curioso é que o próprio Bob McTavish, escreveu um artigo na revista Surfer chamado “Re-Enter the Longboard”, defendendo à volta dos longboards, pelo menos nas ondas menores.

Sou surfista de longboard e escolhi essa modalidade por amor e tenho um carinho enorme pela história que vem junto com os pranchões, mas é impossível não reconhecer o que a pranchinha/shortboard trouxe para o surf. Sem ela, não existiriam os aéreos, os tubos impossíveis, as rabetadas e outras manobras que vemos hoje nas competições, algo que atraiu muitos novos surfistas e fez o esporte crescer.

O longboard não morreu

A chegada da pranchinha/shortboard não matou o longboard, ele sobreviveu, evoluiu e tem campeonatos e filosofia própria de se conectar com o mar.

É um outro jeito de surfar, mais elegante, mais calmo e técnico do que parece. Tem gente que acha que é coisa de quem não surfa direito e não consegue mandar manobra, mas é totalmente ao contrário, acredito que é um estilo de surf para quem entende o mar de verdade, mas essa opinão sempre causa briga kkkk.

A verdade é que McTavish não tentou acabar com o longboard, ele apenas abriu uma porta nova, permitindo que hoje, possamos ver nas praias do mundo inteiro, pranchinhas/shortboards, longboards, fishs, mid-lengths e vários outros modelos no mesmo pico, cada um com seu estilo de surf.

As mudanças sempre começam com alguém insatisfeito com o que existe, alguém que olha para o que todo mundo considera certo e pensa que dá pra fazer diferente. McTavish não era o melhor surfista, era apenas um surfista curioso e teimoso o suficiente para testar uma ideia que a maior parte ignoraria.

Até a próxima! Ihii!

Pedro Bento
@pedrobento28





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