A vida é horrível e miserável, mas Annie Hall me faz muito feliz

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Woody Allen e Diane Keaton em cena de
Divulgação

Woody Allen e Diane Keaton em cena de “Annie Hall”, obra-prima de 1977 que, no Brasil, foi bizarramente batizada de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”

“Não tenho medo da morte. Só não quero estar lá quando isso acontecer”.

Annie Hall (“Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”’) é o meu filme preferido da vida. Como sou um combo de paradoxos, mesmo militando contra estrangeirismos e termos em inglês, adoto o título original (nome-próprio, como é o caso da personagem-título da saudosa Diane Keaton, não tem tradução) porque a tradução da obra-prima de Woody Allen é uma das coisas mais patéticas já feitas na história do cinema.

Woody Allen, inclusive, é o responsável pela minha curiosidade em conhecer Ingmar Bergman. E “Cenas De Um Casamento” (dane-se o título original em sueco e o fato de, originalmente, nem ser um filme, mas uma série que foi editada em longuíssima-metragem) virou minha medalha de prata no pódio dos filmes.

Adoro de “Cenas De Um Casamento” porque é Woody Allen na veia. Ou melhor, respeitando a cronologia, o melhor Allen é ainda melhor que o melhor Bergman. E, questão de gosto, numa disputa entre duas notas dez, amo ainda mais Diane Keaton do que sou apaixonado por Liv Ullmann.

Revi, pela bilhonésima oitava vez, nesta sexta (9 de outubro) . Annie Hall, o melhor filme do meu diretor preferido de todos, entrega o que mais amo em filme: diálogos, ironia, humor sútil e ranzinza. 

E, no caso de Annie Hall, vale repetir, pela trilhonésima décima oitava vez, o clichê: cada vez o filme fica melhor e nos permite novas leituras pessoais, de acordo com o momento pessoal, amoroso, profissional e global vividos. E toda vez que assisto, mudo a minha frase preferida do filme.

“Tenho uma visão muito pessimista da vida. Se vamos andar juntos, é melhor que saiba. Sinto que a vida se divide em horrível e miserável. Essas são as duas categorias. Os horríveis são como, sei lá, casos terminais, você sabe, e pessoas cegas, aleijadas. Eu não sei como eles passam pela vida. É incrível para mim. E os miseráveis são todos os outros. Então você deve ser grato por ser infeliz, porque é muita sorte ser infeliz”.

Infelizmente, sou muito mais o personagem Alvy Singer do que o gênio Woody Allen. Mas o diretor me faz feliz. Feliz à Guimarães Rosa: “Felicidade se acha é em horinhas de descuido”.

Felicidade, no meu caso, que é o caso de quem está na trincheira oposta a barbárie fascista e na arquibancada canta orgulhosamente o sofrimento, é que a vida não se resume ao Corinthians. E o Derby, graças a Deus, São Jorge e a Nossa Senhora, é só no domingo.

Quanto há vida… Há vida! Certo, Alvy Singer?  “Não tenho medo da morte, só não quero estar lá quando isso acontecer”.

PS: Modéstia à parte, 1977, ano de Annie Hall e do nascimento do pai do Basílio, é o ano mais importante da história. E quem discordar é clubista




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Vitão Raiz

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