A presença de Igor Thiago entre os 26 convocados da seleção brasileira para a Copa do Mundo é uma grande reviravolta para um atleta que foi ignorado pelos grandes clubes do país quando jovem.
Reprovado em várias peneiras e com uma passagem sem brilho pelo Cruzeiro, o centroavante nascido no Distrito Federal há quase 25 anos- ele faz aniversário em junho -se transformou no futebol europeu a ponto de ser uma das esperanças de gol na busca pelo hexacampeonato.
Atacante do Brentford, Igor Thiago marcou 22 gols na Premier League inglesa, considerada a principal disputa nacional da atualidade. Foi o vice-artilheiro da competição, cinco atrás de Erling Haaland, estrela do Manchester City e da Noruega.
Nunca um brasileiro havia marcado tantos gols em uma edição da liga inglesa. O recorde, até então, pertencia a Matheus Cunha, Gabriel Martinelli e Roberto Firmino, todos com 15 gols.
PRIMEIRO CLUBE SÓ AOS 17
O desempenho na Europa se opõe ao que ele mostrou no Brasil. O início tardio é um dos motivos que explica essa diferença. Enquanto Vinicius Junior e Rodrygo, dois jogadores de sua faixa etária, estavam no futebol desde os 12 anos, Igor Thiago se virava como servente de pedreiro, feirante e panfleteiro para ajudar nas contas de casa.
“Meu pai capinava lote na minha cidade. Eu via meu pai fazendo isso e eu dizia que queria ser igual a ele. Eu não entendia muita coisa, mas eu dizia isso. Então, com 10, 11 anos, eu já capinava lote. Capinava os lotes dos vizinhos. Mas depois da morte do meu pai, eu tive de trabalhar mais, eu tinha de mudar a realidade da minha casa”, disse Igor Thiago, ao UOL.
A necessidade de trabalhar fez com que Igor Thiago encarasse o futebol como um projeto tardio. Começou a fazer testes aos 15 anos de idade, mas só foi aprovado em uma equipe aos 17, quando foi contratado pelo Verê, clube da segunda divisão do Paraná.
“Ele me falava que tinha trabalhado em obra, feira e que precisava ajudar a colocar comida em casa. Ele sempre dizia que queria poder comprar uma casa para a sua mãe. Mas não tinha como fazer isso no Verê. Nosso salário não dava nem R$ 500. Era mais uma ajuda de custo do que um salário mesmo”, disse Guilherme Belea, companheiro de ataque de Igor no futebol paranaense e que joga nesta quinta-feira (28) no Piauí.
CHOQUE NO CRUZEIRO
Um ano depois do Verê, o atual centroavante do Brentford chegou ao Cruzeiro, mas como uma aposta para o time sub-20. Sofreu rejeição no início, mas depois conseguiu se consolidar.
Eu senti um pouco de rejeição no Cruzeiro. Tinha muito julgamento, muita gente dizia que eu não sabia finalizar, que eu não deveria estar ali. Mas o que ninguém entendia é que eu não tive uma formação de base. Na minha vida, eu sempre tive de aprender as coisas muito rápido e só observando. A minha primeira chance no futebol já foi no sub-20. Muita gente não tinha paciência comigo para entender que eu não tive essa formação em categoria de base. Mas Deus me deu essa habilidade de pegar tudo muito rápido. Eu me adapto muito rápido. Muita gente perguntava como passei no Cruzeiro, se era esquema de empresário, se meu pai era rico. Mas depois eu consegui mostrar o meu futebol e estreei com um gol e as pessoas começaram a me entender melhor Igor Thiago
“Ele era um jogador de muita força. Mas os observadores não gostaram da contratação dele. A maioria rejeitou porque ele não tinha base. Mas nós decidimos apostar porque ele tinha potencial, tinha muita velocidade e força. Era só questão de lapidar mesmo o talento dele”, contou Amarildo Ribeiro, ex-diretor do Cruzeiro.
Um dos responsáveis pela evolução de Igor Thiago foi Célio Lúcio, auxiliar técnico das categorias de base do Cruzeiro e ex-jogador do clube na década de 1990.
“O (Igor) Thiago chegou muito tarde no Cruzeiro. Ele não teve base e isso atrapalhou muito. Ele chegou muito imaturo tecnicamente. Tivemos de trabalhar muita coisa. Ele tinha dificuldades em dominar, cabecear. Mas ele era um cara muito humilde e estava disposto a aprender. Eu lembro que ele entrava no campo 20 minutos antes do treino e ficava mais 20 minutos depois. Isso foi uma decisão dele. Não fomos nós que pedimos. Ele sabia que tinha potencial, mas que precisava evoluir, que precisava trabalhar estes fundamentos”, relatou Celio Lucio.
“Eu ficava porque eu precisava fazer mais. O Celio me ajudou muito. Eu ficava me questionando por que ele conversava tanto comigo. Eu nunca tive ninguém no futebol tentando me ajudar assim. E ele estava sempre em cima, sempre me ajudando. Eu comecei a chegar 20 minutos antes porque eu precisava aperfeiçoar os fundamentos. Eu não tive formação”, disse o centroavante.
TREINADO POR LUXA E FELIPÃO
No grupo de 26 jogadores que disputará a Copa do Mundo, apenas quatro não tiveram passagem pelas seleções de base do Brasil. Igor Thiago é um deles. Os outros três são Weverton, Wesley e Raphinha.
O aprendizado de Igor Thiago teve de ser com a carreira em curso. Em crise financeira pelo rebaixamento à Série B, o Cruzeiro viveu um período de muita instabilidade no comando técnico.
Durante dois anos, ele foi treinado por Luiz Felipe Scolari, Vanderlei Luxemburgo, Enderson Moreira, Ney Franco, Adilson Batista, Felipe Conceição, Mozart e Paulo Pezzolano.
Foi com Luxemburgo que Igor Thiago recebeu mais chances. Disputou 19 partidas e marcou quatro gols. Já com Scolari, ele teve menos oportunidades: sete jogos e nenhum gol.
A saída de Igor Thiago do Cruzeiro aconteceu em 2022. O dono do clube era Ronaldo, que o negociou por R$ 3,6 milhões para o Ludogorets. Na Europa, a evolução de Igor Thiago tomou forma e ele finalmente superou as dificuldades de não ter tido base para decolar.
Ele foi campeão da Bulgária na primeira temporada e vendido para o Brugge, da Bélgica. No novo país, venceu novamente a liga nacional e chegou ao Brentford, onde se tornou uma estrela do futebol inglês e entrou no caminho da seleção brasileira na busca pelo hexacampeonato.
* THIAGO RABELO/folhapress

