A Fifa concordou em pagar 4 milhões de dólares (cerca de R$ 20 milhões) pelo aluguel de um escritório de 450 m² na Trump Tower, em Nova York, embora o espaço permaneça vazio. Segundo uma reportagem publicada pelo jornal francês ‘Le Monde’ nesta terça-feira (13), o contrato prevê pagamentos durante sete anos e sete meses a uma empresa ligada à família do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O acordo começou a valer em 1º de junho de 2025 e envolve a Fifa Americas Incorporation, subsidiária da entidade registrada no estado americano de Delaware, e a Trump Tower Commercial LLC, empresa sediada em Nova York e presidida por Eric Trump, filho do presidente americano. Os documentos consultados pelo jornal francês indicam que quatro integrantes da direção da Fifa assinaram o contrato em maio de 2025, incluindo o secretário-geral da entidade, Mattias Grafström.
A locação chama a atenção porque, de acordo com fontes ouvidas pelo Le Monde, nenhum funcionário da Fifa trabalha regularmente no local e a maioria dos empregados da organização desconhecia os detalhes do acordo. O escritório fica no 17º andar de um edifício de 58 andares ligado à Trump Organization, empresa da família Trump.
Contrato prevê pagamentos até 2032
A Fifa escolheu Nova York para estabelecer um escritório de representação em meio à preparação para a Copa do Mundo de Clubes 2025 e para a Copa do Mundo 2026, ambas realizadas nos EUA. No entanto, a entidade já mantinha uma estrutura jurídica em Miami, na Flórida, desde 2024.
Além disso, a investigação aponta que a Fifa não visitou outros imóveis nem comparou propostas de diferentes empresas antes de escolher a Trump Tower. A decisão provocou preocupação entre integrantes da administração, que questionaram a necessidade do espaço e levantaram possíveis riscos de conflito de interesses devido à ligação comercial com a família do presidente de um dos países-sede do Mundial de 2026.
O contrato estabelece um aluguel anual médio de aproximadamente 41 mil dólares por mês (cerca de R$ 205 mil), segundo o ‘Le Monde’. O valor acompanha os preços de mercado para escritórios com área semelhante na Quinta Avenida, em Manhattan. O acordo também prevê reajuste anual de 2%.
Embora a Fifa possa encerrar o contrato antecipadamente, a rescisão exige o cumprimento de condições específicas. Segundo os documentos consultados pelo jornal, a entidade só poderá deixar o imóvel após cinco anos e sete meses de vigência. Mesmo assim, mediante aviso prévio de 12 meses e pagamento equivalente a seis meses de aluguel.
Fifa defende a escolha do imóvel
Questionada pelo jornal, a Fifa informou que paga um aluguel compatível com os preços de mercado e cumpre a legislação local. A entidade também justificou a abertura do escritório pela necessidade de manter uma presença em Nova York durante grandes eventos, incluindo as competições internacionais organizadas pela própria federação.
Segundo a entidade, o espaço recebe representantes da Fifa quando eles estão na cidade e já sediou encontros com integrantes de federações nacionais, autoridades governamentais e outros representantes do setor esportivo.
A entidade, porém, também precisou arcar com despesas adicionais. Documentos obtidos pelo jornal francês mostram uma cobrança de quase 100 mil dólares (R$ 500 mil) emitida pela Trump Corporation em setembro de 2025. A conta se refere a serviços de manutenção, eletricidade e reforma do escritório.
Outro ponto levantado pela investigação diz respeito à supervisão interna do contrato. A comissão de finanças da Fifa aparentemente não foi informada nem aprovou previamente a instalação e seus custos. A entidade rebateu essa versão e declarou que a assinatura ocorreu de acordo com seus procedimentos internos habituais.
Relação entre Trump e Infantino volta ao centro do debate
O contrato levanta suspeitas pela proximidade entre Donald Trump e Gianni Infantino, presidente da Fifa desde 2016. Os dois mantêm uma relação pública, que ganhou destaque durante a preparação para a Copa do Mundo 2026.
Em julho, Trump e Infantino participaram de uma recepção na própria Trump Tower, dois dias antes da final do Mundial. Na ocasião, os dirigentes celebraram a realização do torneio, enquanto a Fifa mantinha o contrato de aluguel do escritório no edifício.
A relação comercial também ocorre em um momento de pressão sobre Infantino. O presidente da Fifa enfrenta questionamentos após abandonar um projeto de criação de uma empresa comercial que permitiria a entrada de investidores privados. A entidade ainda se prepara para a eleição presidencial marcada para 18 de março de 2027, quando o dirigente buscará um novo mandato.
Além disso, o deputado democrata Jamie Raskin, integrante da Comissão Judiciária da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, solicitou informações sobre os contatos. Segundo o ‘Le Monde’, o parlamentar também pediu documentos relacionados a essas interações.
