
Ziyech chegou “escoltado” por gangue
O corte que viralizou nas redes sociais, a piada do influenciador, a audiência elevada do canal ninchado, a declaração à emissora oficial e os clichês massacrantes do mundo da bola encobriram algo gravíssimo durante o desembarque do atacante Ziyech no Aeroporto Antônio Carlos Jobim, no Rio de Janeiro, na última terça-feira (8). Para não ser injusto, alguns comunicadores mencionaram, en passant, o episódio. Porém, sem o devido aprofundamento que o caso demanda.
Posicionada à frente da imprensa na entrada do salão nobre do Galeão, a principal facção da torcida do Botafogo se antecipou ao clube, tomou as rédeas da chegada de Ziyech e conduziu o astro marroquino a alguns seguidores que esperavam na grade. Em seguida, diante de um empurra-empurra, forçou o atacante, em segundo plano, a tirar fotos fazendo o símbolo da gangue. Os jornalistas, por sua vez, tiveram o direito de ouvir e transmitir algumas palavras da nova contratação do Glorioso negado.
O espetáculo dantesco da chegada de Ziyech terminou quando o Botafogo enfiou o futuro reforço no carro, que arrancou rápido para longe da celeuma. Ao curvar-se diante da facção, o clube foi incapaz de assegurar aos jornalistas a liberdade de imprensa, conforme reza a Constituição Federal. Aliás, pior. Descumpriu um acordo prévio e cruzou os braços ao ver este direito ser vilipendiado.
Aberração
“Hoje, a organizada venceu a imprensa”, resumiu, com proficiência, um diretor do Botafogo.
A frase carrega consigo algumas camadas e sintetiza o perigo do momento. A cobertura de um evento de grande porte tornou-se uma disputa entre jornalistas e a gangue que está de volta às arquibancadas do Estádio Nilton Santos após inúmeras punições por casos de violência e descumprimento de condutas em estádios de futebol. Leva a melhor quem tem o monopólio da força, como aconteceu nesta semana. Ou seja, diante desta aberração, regredimos alguns séculos e naturalizamos a barbárie.
Em vez de publicar que Ziyech chegou nos braços da torcida do Botafogo, o Jogada10, presente no local da ocorrência, optou por outra abordagem, destacando, também, a desorganização, o atraso e o tumulto do evento. Ser implacável é um dever cívico para quem mantém o senso de justiça e guarda algum apreço por democracia.
*Esta coluna não reflete, necessariamente, a opinião do Jogada10.
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