Ministério do Esporte mira legado da Copa Feminina de 2027

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Seleção Feminina Foto: Página Oficial Seleção Brasileira de Futebol Feminino

A preparação do Brasil para a Copa do Mundo Feminina de 2027 representa, para o ministro do Esporte, Paulo Henrique Cordeiro, mais do que a organização de uma grande competição internacional. À frente da pasta desde abril deste ano, o ministro vê no Mundial uma oportunidade histórica para fortalecer o futebol feminino, ampliar a participação das mulheres no esporte e consolidar políticas públicas que deixem resultados permanentes para o país.

“É a primeira vez que a Copa do Mundo Feminina vai acontecer na América Latina. E é o Brasil que vai receber”, afirmou o ministro. Para ele, a realização do torneio ocorre em um momento particularmente importante para a modalidade, inclusive pelo desempenho da Seleção Brasileira Feminina.

Cordeiro também relaciona a Copa de 2027 à história de exclusão vivida pelas mulheres no futebol brasileiro. A modalidade chegou a ser proibida por lei no país durante décadas, período que, segundo o ministro, deixou marcas que ainda precisam ser superadas.

“Então, assim, foram 40 anos de proibição. As mulheres não podiam jogar futebol, e a lei dizia que era incompatível com a natureza feminina. Imagina, né? Uma coisa absurda”, afirmou.

O ministro lembra ainda a importância do Rio de Janeiro na história do futebol feminino brasileiro. Segundo ele, as pioneiras que formaram a primeira seleção brasileira feminina tiveram forte presença no estado, assim como jogadoras que participaram da reconstrução da modalidade após o fim da proibição.

“A primeira seleção brasileira era quase toda aqui no Rio de Janeiro, de 1988, as pioneiras. Então, a partir do próprio Rio, você teve esse fortalecimento das mulheres no futebol”, destacou.

Para Cordeiro, o Mundial pode representar uma espécie de coroação desse processo histórico. “A Copa do Mundo Feminina aqui é uma coroação desse momento do Brasil que está se colocando no mundo como um país que está na vanguarda. O fortalecimento da mulher, da política de enfrentamento à violência. Então, a gente acha que o futebol é a última barreira para a gente vencer, para que a mulher esteja colocada, para que a mulher esteja bem posicionada no meio.”

Ministro do Esporte, Paulo Henrique Cordeiro, projeta legado no futebol feminino pós CopaFoto: Rodrigo T. Ribeiro

Três legados da Copa de 2027

Na avaliação do ministro, o planejamento do Mundial precisa ser pensado antes mesmo de a competição começar. A experiência deixada pelas Copas de 2014 e 2016, segundo ele, mostrou a importância de antecipar a construção do legado.

“Dessa vez a gente está tentando construir isso de forma antecipada. Então, o primeiro legado, tem três legados: o legado social, o legado esportivo e o legado sustentável”, explicou.

No campo esportivo, uma das prioridades é ampliar as oportunidades para meninas que desejam começar a jogar futebol e criar condições para que elas permaneçam na modalidade. “Desafio que vocês têm hoje: as meninas sonham no Brasil com futebol? É isso. E como é que a gente constrói um ecossistema que coloca as meninas brasileiras para sonhar com futebol feminino?”, questionou.

A estratégia passa, segundo ele, pelo fortalecimento das categorias de base, dos clubes e dos centros de treinamento dedicados ao futebol feminino. “A intenção do Governo Federal é que a gente aumente essa quantidade de centros de treinamento de futebol feminino, porque é daí que sai, né, gente? Então, aí você tem um legado esportivo, mas dentro disso também tem um legado social, porque você empodera essas meninas, você capacita, você traz uma convivência.”

O ministro também defende uma mudança na forma como o futebol feminino é tratado comercialmente. Para ele, não basta garantir a sustentabilidade das competições: é preciso transformar a modalidade em uma atividade economicamente viável. “A gente precisa fortalecer o futebol feminino. A gente tem uma Série A masculina que é uma das melhores do mundo, e a Série A feminina joga no meio da manhã de domingo e, às vezes, em estádio de várzea. Não tem condição”, afirmou.

Segundo Cordeiro, o momento é propício para essa transformação. “A gente precisa mudar, não tem condição da forma que está. E não tem momento mais profícuo para que essa mudança se dê como agora.”

Seleção femininaReprodução/Instagram

Infraestrutura como política pública

O balanço apresentado pelo ministro também passa pela expansão da infraestrutura esportiva. Ele cita o Programa Arena Brasil, integrado ao eixo de Infraestrutura Social e Inclusiva do Novo PAC, como uma das principais entregas da atual gestão. “As Arenas Brasil, que hoje já são PACtuadas, mais de 700 arenas do Brasil estão espalhadas no país inteiro e é um equipamento de altíssima qualidade”, disse.

O modelo reúne, no mesmo espaço, campo society, quadra de basquete 3×3, pista de caminhada ou atletismo, playground e estrutura de apoio. A proposta, segundo o ministro, é fazer do equipamento um espaço utilizado por toda a família. “Então, assim, qualidade de vida. E é uma entrega dessa gestão, deste ministro que está chegando aí, e desse governo.”

Até julho de 2026, conforme os dados apresentados pelo Ministério do Esporte, 41 Arenas Brasil haviam sido entregues. Outras 260 foram habilitadas na seleção de 2025, com investimento aproximado de R$ 390 milhões. Cordeiro ressalta que o programa segue um padrão nacional. “Se tu for no Rio Grande do Sul ao Amapá, do Oiapoque ao Chuí, você vai encontrar o mesmo modelo, porque o projeto é nosso. A gente construiu.”

Esporte como prevenção e inclusão

Outro ponto destacado pelo ministro é o papel do esporte como instrumento de prevenção em saúde, inclusão social e convivência comunitária. “O esporte é a forma mais barata de você investir em saúde, em socialização, em construção de ambientes saudáveis. Então, esse governo acredita nisso”, afirmou.

Nesse contexto, ele cita o Programa TEAtivo, desenvolvido pelo Ministério do Esporte em parceria com a APAE Brasil e voltado à prática esportiva por crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista. “É um projeto que é em parceria com a APAE, que leva prática esportiva para as cidades. Hoje ele já tem todas as capitais do Norte e do Nordeste. E ele leva prática esportiva para crianças com TEA.”

O ministro relata ainda o impacto emocional provocado pelas visitas aos projetos. “Quando a gente visita o núcleo do TEAtivodá orgulho de ver o trabalho realizado. Emocionante”, disse, ao destacar as histórias das famílias atendidas pela iniciativa.

Bolsa Atleta e financiamento do esporte

No alto rendimento, Cordeiro destaca o reajuste do Bolsa Atleta e o número recorde de contemplados em 2026. Segundo os dados apresentados pelo Ministério, o programa chegou a 11,2 mil atletas das modalidades olímpicas, paralímpicas e surdolímpicas, com orçamento de R$ 231 milhões. “O Bolsa Atleta não tinha reajuste desde 2014. Foi ajustado agora. A gente reajustou o Bolsa Atleta e bateu recorde sucessivo de entrada de novos atletas no Bolsa Atleta”, disse.

O ministro também chama atenção para a Lei de Incentivo ao Esporte, que, segundo o balanço da pasta, movimenta cerca de R$ 1 bilhão em projetos e alcança mais de 1 milhão de brasileiros. “A gente conseguiu perenizar a lei e ampliar. Hoje talvez a maior ferramenta do esporte no Brasil se dê através da Lei de Incentivo”, afirmou.

A partir de 2028, o limite de dedução do Imposto de Renda para empresas apoiadoras passará de 2% para 3%, conforme previsto na legislação. Para Cordeiro, a mudança pode ampliar a participação privada no financiamento de projetos esportivos. “Hoje a gente está executando em torno de um bilhão em projetos de incentivo, que alcançam mais de um milhão de brasileiros. Hoje talvez a maior ferramenta do esporte no Brasil se dê através da Lei de Incentivo ao Esporte.”

Além do futebol…

Ao fazer um balanço dos primeiros meses à frente da pasta, Cordeiro defende que o esporte seja tratado como uma política pública estratégica e não apenas como entretenimento ou competição. “O primeiro passo foi exatamente o reconhecimento pelo governo do presidente Lula, de ter a sensibilidade de dar a importância devida para o esporte”, ressaltou.

Para o ministro, os efeitos ultrapassam o campo esportivo. “Esporte é saúde preventiva, saúde mental, é inclusão social. Durante a pandemia, essas academias salvavam. O esporte é tudo isso”. Cordeiro também destaca o impacto econômico da atividade esportiva. “O esporte é uma indústria maior do que a audiovisual no Brasil, sabia disso? Do ponto de vista econômico.”

Ao citar o futebol, o ministro aponta o potencial de geração de riqueza associado à cadeia esportiva, envolvendo transporte, hotelaria, restaurantes, comércio e serviços. “De cada um real investido no futebol brasileiro, volta para a economia 20”, afirmou, citando estudos da Fundação Getulio Vargas.

MaracanãRiotur

Copa começa antes do primeiro jogo

A preparação para a Copa Feminina de 2027 também levou o governo a criar uma Secretaria Extraordinária dedicada exclusivamente ao Mundial. Segundo Cordeiro, a estrutura permite antecipar problemas e articular diferentes setores envolvidos na organização. “A impressão que a gente tem é que uma Copa do Mundo inicia no apito do primeiro jogo. Não. A gente já está há mais de dois anos lidando com isso”.

O ministro cita como exemplo a articulação para garantir Brasília entre as cidades-sede, envolvendo FIFA, governo federal, governo local e administração do estádio. “Não era papel nosso, mas a gente não pode deixar Brasília de fora. Assim como o Rio não pode ficar de fora.”

A expectativa econômica também faz parte da preparação. O estudo da FGV citado pelo Ministério do Esporte e pela Embratur estima que a Copa do Mundo Feminina deverá movimentar mais de R$ 8,8 bilhões na economia brasileira e gerar mais de 73 mil empregos diretos e indiretos.

Cordeiro destaca ainda o potencial do turismo esportivo, tanto nacional quanto internacional, com visitantes permanecendo nas cidades-sede e circulando por outros destinos brasileiros.

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Conectividade como parte do legado

Entre os investimentos de infraestrutura associados ao Mundial, o ministro também destaca a conectividade. Segundo ele, o governo prevê investimento de cerca de R$ 220 milhões para ampliar a infraestrutura tecnológica e levar conectividade aos estados envolvidos na competição.

A intenção é que parte dessa estrutura permaneça após o Mundial, beneficiando não apenas torcedores e turistas durante os jogos, mas também a população. Para Cordeiro, esse é justamente o sentido de pensar a Copa de forma antecipada: aproveitar uma competição internacional para acelerar políticas que continuem produzindo efeitos depois de 2027.

No centro dessa estratégia está a tentativa de transformar a relação do brasileiro com o futebol feminino. “O maior legado da Copa Feminina de 2027, que é a primeira da América Latina, é um legado sociocultural. É um legado de fazer virar a chave da forma como o brasileiro, tão apaixonado com o futebol, encara o futebol feminino e encara o futebol masculino de uma forma e o feminino de outra.”

E completa: “A gente quer fazer com que o futebol feminino seja praticado por todas as meninas, por todas as mulheres e, mais do que isso, que o futebol feminino seja rentável.”

Para o ministro, a Copa de 2027 pode ser o momento de consolidar essa mudança. “Não tem momento mais profícuo para que essa mudança se dê como agora.”



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