
Bicampeão mundial e maior ídolo da história do Botafogo, Garrincha é uma figura que vai muito além de seu tempo
Em dezembro de 1982, Garrincha entrou em campo pela última vez. Não havia uma Copa do Mundo em disputa, uma torcida esperando mais um drible histórico ou um estádio lotado para assistir ao homem que encantou o planeta nos anos 1950 e 1960.
Em Planaltina, cidade-satélite do Distrito Federal, um pouco mais de 12 mil pessoas foram ao estádio para ver o Anjo das Pernas Tortas em uma partida amistosa. Aos 49 anos, já muito debilitado pelo alcoolismo, Mané já não era nem mais a sombra do jogador que desmontava defesas com movimentos inesperados. Naquela tarde, uma cobrança de falta poderia resultar no último gol de sua carreira. Mas a bola foi defendida pelo goleiro Paulo Vítor. Menos de um mês depois, o ídolo de toda uma nação morreria em um hospital do Rio de Janeiro.
A cena resume um pouco os últimos anos de vida de Manuel Francisco dos Santos. O homem que ajudou o Brasil a conquistar duas Copas do Mundo e transformou o drible em uma forma de arte terminou a vida muito distante do protagonismo que alcançou nos gramados. Nesta quarta-feira, 28 de outubro de 2026, Garrincha completaria 93 anos.
Da glória mundial à luta contra o alcoolismo
Garrincha alcançou o auge esportivo com a camisa da Seleção Brasileira. Em 1958, integrou o grupo que conquistou a primeira Copa do Mundo do país, na Suécia. Quatro anos depois, no Chile, assumiu o protagonismo após a lesão de Pelé e teve atuação decisiva na campanha do bicampeonato.
No Botafogo, tornou-se o maior ídolo da história do clube. Seus dribles, sua espontaneidade e a capacidade de superar adversários que conheciam seus movimentos fizeram dele um personagem singular, espetacular, lendário do futebol mundial.
Entretanto, a carreira extraordinária não garantiu uma vida tranquila depois da aposentadoria esportiva. Lesões, dificuldades para se adaptar à vida longe dos gramados e problemas relacionados ao consumo de álcool acompanharam o declínio do jogador. Nos últimos anos, Garrincha passou por sucessivas internações e enfrentou uma deterioração física que contrastava com a imagem do atleta capaz de provocar alegria em multidões.
A biografia Estrela Solitária – Um brasileiro chamado Garrincha, de Ruy Castro, publicada em 1995, tornou-se uma das principais referências para compreender essa trajetória. A obra reconstrói não apenas a genialidade do jogador, mas também as contradições de sua vida pessoal, as relações afetivas, as dificuldades financeiras e a luta contra o vício.
A última partida e o gol que não aconteceu
Em 25 de dezembro de 1982, Garrincha entrou em campo pela última vez. O bicampeão mundial vestiu a camisa 7 do Londrina, equipe amadora de Planaltina, no Distrito Federal, para disputar uma partida beneficente contra uma seleção da Associação de Garantia ao Atleta Profissional (Agap-DF), formada por jogadores de outros clubes.
Mais de 12 mil pessoas compareceram ao Estádio Adonir Guimarães para rever o ídolo, que enfrentava dificuldades financeiras. A iniciativa do jogo partiu de seu amigo Manoel Esperidião Pereira, conhecido como Manoelzinho, que organizou o evento, inclusive, para ajudá-lo financeiramente. Seu cachê foi de 200 mil cruzeiros.
Porém, apesar das limitações físicas, Garrincha ainda protagonizou alguns momentos de habilidade. Em uma das jogadas, passou pelo marcador e cruzou para a área. O goleiro Paulo Vítor, do Fluminense e da Seleção Brasileira, impediu que o veterano marcasse em uma cobrança de falta. A bola saiu fraca, e o goleiro defendeu sem dificuldade, apesar dos apelos dos torcedores, que queriam ver o último gol de Mané.
Garrincha deixou o campo no início do segundo tempo. A seleção da Agap-DF venceu por 1 a 0, com gol de Éder Antunes, marcado minutos depois que Garrincha saiu de campo.
Os últimos dias de Garrincha
Nas últimas semanas de vida, Garrincha enfrentou uma fase especialmente grave. Segundo relatos de sua viúva, Vanderléia, o ex-jogador bebia compulsivamente e passou os três últimos dias sem se alimentar corretamente. Em 19 de janeiro de 1983, um dia antes de morrer, Mané foi a uma casa lotérica em Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro, e fez uma aposta na Loto.
Horas depois, Garrincha começou a passar mal em casa. Ao tentar se levantar da cama, caiu. Amigos e damiliares o levaram a um posto de saúde do antigo Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social). Em seguida, foi levado para uma clínica, onde recebeu soro e ficou em repouso. Garrincha, entretanto, ainda estava consciente e conseguia falar, mas seu quadro era crítico.
Garrincha, porém, não resistiu e morreu nas primeiras horas da madrugada de 20 de janeiro. Os registros médicos apontaram complicações como congestão pulmonar, pericardite e esteatose hepática, sintomas associados diretamente ao alcoolismo crônico.
No dia seguinte, milhares de pessoas acompanharam as homenagens no velório realizado no Maracanã e o cortejo até Magé, na Baixada Fluminense, onde ocorreu o sepultamento. A bandeira do Botafogo cobriu o caixão durante a despedida. Sem dinheiro para pagar as despesas com o enterro, entrou em campo a figura do cantor Agnaldo Timóteo, ilustre torcedor do Botafogo, que bancou todos os custos.

O desaparecimento da ossada no cemitério de Magé
Em maio de 2017, 34 anos depois da morte, a família de Garricnha descobriu que não havia certeza sobre a localização de seus restos mortais no Cemitério Municipal de Raiz da Serra, em Magé, na Baixada Fluminense. A filha Rosângela Santos revelou à época que recebeu a informação de que o corpo do pai havia sido exumado, mas não conseguiu obter documentos que esclarecessem quando o procedimento ocorreu ou para onde a ossada foi levada. A situação veio à tona quando a prefeitura procurou informações sobre o sepultamento para preparar uma homenagem ao ídolo.
Assim, diante das dúvidas, a família e a Prefeitura de Magé discutiram a possibilidade de realizar exames de DNA para identificar os restos mortais. O caso foi levado até a Polícia Civil. As investigações, porém, foram encerradas e arquivadas sem conseguir rastrear o paradeiro ou o destino final dos ossos do bicampeão mundial.
