
PB – Praia da Macumba
Todo surfista sabe que entrar no mar nunca é apenas praticar um esporte, para nós, colocar a prancha debaixo do braço e ir em direção às ondas é um ritual (que gostaríamos que fosse diário), um treino, um momento de conexão com a natureza e muito mais sentimentos que nem conseguimos descrever.
Se você frequenta escolinhas de surf, oficinas de shapers ou casas de praia, talvez você já tenha visto um texto clássico entre os surfistas, que é a famosa “Oração do Surfista“:
“Senhor,
Vós que surfais nos mares do universo
Dropando em todas ondas
Fazei, Senhor, que em cada boa onda
Nós possamos entubar
Sem virar vaca
Enviai-nos vossa resposta em ondas de paz e amor fraternos
Perdoai, Senhor, as nossas viradas de vaca
Assim como nós perdoamos
Os rabeiros da nossa vida
Não nos deixais faltar parafina
Para que possamos ficar em pé
Para surfar
Dai chance, Senhor, aos paneleiros
Para que eles um dia
Possam arrepiar como nós
Senhor, protegei-nos da boca e
Fazei que nenhum porradão nos derrube
Que nosso estrepe nunca escape
Deixando-nos estrepados
Que a quilha deslize sempre longe de nós
Para que não nos cortemos
Que o mar nunca fique sem ondas
E sim que elas sempre estejam rodando
Fazei, Senhor, que o terral sempre esteja por perto
Que o sol sempre brilhe com seus raios
Para nos aquecer o corpo e a alma
Senhor, vós que arrepiais
Vós que sois a fera de todos os mares
Fazei, Senhor, que nós, os surfistas
Encontremos o nosso point sem que
Esteja muito crowd
Fazei, Senhor, com que nós aqui na Terra
Possamos fazer muitos surfaris
Em vosso “Mar Celestial”
Certos de que nunca estará contra nós
Agradecemos desde já
As ondas nossas de cada dia
Pedindo a vossa proteção divina até o
Próximo dia de mar brabo e Esperando o dia em que nós
Surfaremos juntos
Pelas ondas da vida, Amém.”
O “dialeto das ondas” em cada estrofe
Para quem está de fora ou ainda começando no surf, a oração pode parecer apenas um texto com termos diferentes e às vezes sem sentido, mas para nós surfistas, cada palavra descreve com precisão a rotina e os altos e baixos de uma sessão de surf.
Dropando e entubando
O drop é o momento em que você fica em pé na prancha e desce a parede da onda. Muita gente não dá tanta importância para dropar da forma correta, mas essa é uma das partes mais importantes do surf, ela define como vai ser a sua onda. Já o tubo, a melhor manobra do surf, é aquele momento mágico em que o lip/crista da onda passa por cima da sua cabeça e você fica ali dentro da onda naquele paraíso. Como disse Big Z (personagem do filme “Tá dando onda”): “Aquele é o melhor lugar do mundo para se estar”.
Vaca
É o nome que usamos para quando caímos da prancha, a onda engole e manda direto para a máquina de lavar.
Terral
Como é chamado o vento que sopra da terra em direção ao oceano, que é normalmente um vento quente e que deixa as ondas lindas, porque ele segura a crista/lip da onda, deixando a parede lisa e perfeita.
Strep/leash e Quilha
O strep/leash é a cordinha de segurança que prende a sua prancha ao seu tornozelo, para que quando você caia, você não tenha que nadar até a areia para recuperar a prancha. Já as quilhas, são aquelas barbatanas embaixo da prancha que garantem a estabilidade e as curvas, podendo ser de fibra de virdro, fibra de carbono ou de plástico.
Rabeirar
Momento em que alguém entra na onda de outro surfista que já tinha a preferência. É importante evitar, pois esse é um dos principais motivos de brigas entre os surfistas. Respeitar as regras do pico/lineup é importantíssimo.
“Ondas nossas de cada dia”
Na minha opinião, essa prece fala sobre como somos pequenos diante do oceano e da natureza. Pedir proteção contra um porradão (onda grande quebrando na cabeça), torcer por uma surftrip/surfari (viagem em busca dos melhores picos do mundo) e agradecer pelas “ondas nossas de cada dia” é o lembrete de que na natureza, não mandamos em nada, apenas devemos aproveitar de forma consciente e respeitosa.
Até a próxima! Ihii!
Pedro Bento
@pedrobento28

