
A coluna Vitão Raiz adota, como condição sine qua non para um ser humano receber o status de “normal”, que ele não chute objetos inanimados quando é contrariado.
É ridículo, pueril, mas, se o “adulto” quiser, ele pode até passar vergonha e fazer beicinho, chorar, fingir para si próprio que é um coitadinho perseguido, culpar o movimento de translação ou o aparelho reprodutor da baleia jubarte pelos próprios erros e insucessos, mas chutar objetos inanimados não pode! Não pode, nã-nã-ni-nã-nã!
Feita a explicação, a parcela normal da sociedade, repito, a parcela que não tem como hobby dar voadora em microfones, deseja que nesta sexta (4 de setembro), às 10h30 (horário do Rio 40 graus, das Perdizes e de Brasília), o STJD puna, exemplarmente, Abel Ferreira.
Quando se trata de uma criança mimada criada com leite desnatado pela avó, a criança vai para o cantinho do castigo para pensar e fica proibida de brincar com o video-game por 18 minutos. Quando se trata de um treinador de futebol profissional, ele vai para o tribunal esportivo.
Espancar microfones é errado sempre! É errado tendo o réu razão na reclamação contra o apito, o que não procede no episódio de Mirassol, ou quando se trata de um choro patético e desmotivado, como é o caso em questão. Pouco importa.
“Estamos a chegar em uma fase das decisões que é normal os jogos sejam difíceis, intensos. Normal às vezes extravasar. Na mesma ação na Conmebol, eu chutei o microfone e fui multado. Não me tiraram de jogo, fui multado”, declarou Abel Ferreira, querendo botar preço na impunidade. Se “pensou” na possibilidade, deveria ter vergonha de expor a sugestão em entrevista coletiva.
Eu, Vitor Guedes, não bebo detergente, tomo vacina e vacino meu filho, não mostro caixa de remédio inútil para ema, sou radicalmente contrário à tortura, tenho nojo da ditadura, abomino a escravidão, tenho asco de racismo, acredito que minha irmã deveria não ter nenhum direito a menos que eu só pelo fato de ser mulher e acho incrível que esses valores, que deveriam ser universais a todos seres humanos bípedes, fazem as pessoas saberem em quem eu voto e, mais claro ainda, em quem eu jamais votaria.
É óbvio, por ser contra o trabalho análogo à escravidão, eu, Vitor Guedes, também sou 818% favorável ao fim da escala 6×1 (escala essa, óbvio ululante, jamais adotada pela rapaziada herdeira “meritocrata” que são contra) e, pois, acho que o dinheiro não pode comprar tudo.
Voltemos ao espancador contumaz de microfones. A grana não pode, sublinhe-se, comprar IMPUNIDADE.
Parafraseando o genial Caetano, a força da grana não pode destruir coisas belas, destruir a isonomia do, essencialmente, popular futebol

Ora, não é porque Abel Ferreira é, indubitavelmente, um treinador vitorioso e competente (e, por isso, é agraciado com um salário nababesco), que ele pode comprar salvo-conduto para chacoalhar a genitália para a torcida, para tomar celular de repórter na zona mista ou para dar, de forma patética e reiterada, chutes em microfones.
“Já fui julgado pelo STJD e peguei oito jogos. Eu não matei ninguém. Já disse, eu vivo o futebol intensamente”, declarou,
Oh, dó… Segundo a sua (ausência de) autocrítica, Abel Ferreira não seria desequilibrado e destemperado, ele, coração quente, só ama demais o futebol… Então, tá, bacana. Já pensou se, pela mesma “lógica” abelista, o playboy faria-limer que espancou a mulher não fosse preso sob a alegação que ele não é um canalha, ele só “ama demais” a mulher e blá-blá-blá?
Que fique claro, é só um exemplo, não estou equiparando os fatos incomparáveis. É óbvio que agredir uma mulher é muito mais grave, é hediondo, é imensuravelmente mais asqueroso do que chutar um objeto inanimado. Este jornalista pensa assim SEMPRE, embora tenha gente que se revolte mais quando uma vitrine de banco é vandalizada em protesto justo de professores por melhorias salariais do que, por exemplo, quando uma chacina é promovida por policiais em comunidades. Essa culpa e essa vergonha, viva a memória, eu não carrego!
Ora, o fato de o treinador do Palmeiras “viver intensamente o futebol” não dá a ele, nem a ninguém, o direito de dar voadora em microfones.
Se Abel não tem controle emocional, como atos reiterados sugerem, o futebol, que segundo ele mesmo diz “está doente”, não tem nada com isso. Se ele não se controla, a lei e o tribunal estão aí para colocar limite nos absurdos e ele pagar pelos chiliques.
Desde o Código de Hamurabi, passando por todas as civilizações, por Portugal e chegando ao futebol brasileiro, não há nenhum lugar em que só o assassinato é punido. Roubo, por exemplo, é crime mesmo quando não se trata de latrocínio. Elementar, certo?! Vale hoje, valia no Brasil Colônia, em 1500.
Que se puna, Abel! Mas, que fique claro, de forma civilizado e dentro da lei. Sem chutes nem espancamentos, algo que nem um microfone merece!
PS: Graças a Deus que Abel não matou ninguém. Que continue assim!
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