
Marcelo Bielsa
Marcelo Bielsa sempre ocupou um lugar raro no futebol: o de técnico tratado como gênio mesmo quando os resultados não acompanham o tamanho da reverência. É o treinador das ideias fortes, da pressão alta, dos treinos obsessivos, dos métodos que formaram jogadores e influenciaram técnicos de elite. Mas também é o personagem que, de tempos em tempos, parece engolir o próprio trabalho.
A Copa do Mundo de 2026 pode ter sido o ponto final dessa contradição.
A eliminação do Uruguai recolocou Bielsa no centro de uma discussão antiga: até quando o futebol vai separar o mito relacionado ao treinador ao resultado que ele efetivamente entrega? A campanha uruguaia terminou sem vitória, com ambiente interno desgastado, ruídos públicos sobre métodos de treino, insatisfação de jogadores importantes e uma decisão que virou símbolo do fracasso: a convocação de Fernando Muslera.
O goleiro já havia se aposentado da seleção. Mesmo assim, Bielsa decidiu chamá-lo para a Copa, contrariando parte da torcida e da imprensa uruguaia. A escolha já nasceu como uma aposta pessoal do treinador. Quando Muslera falhou em todos os jogos e teve participação decisiva no lance que custou a derrota contra a Espanha, sua aposta virou ponto central de uma crise.
Mas Bielsa contrariou o próprio Bielsa e substituiu o goleiro. No intervalo do jogo.
A imagem foi duríssima. O técnico que bancou Muslera contra o ambiente externo precisou corrigir a própria escolha em público, no meio de um jogo decisivo de Copa.
E, nesse movimento, expôs o goleiro e expôs a si próprio.
O problema não começou na Espanha
A falha contra a Espanha foi o momento mais visível, mas não o início do desgaste entre o treinador e seus comandados. O Uruguai chegou ao último jogo da fase de grupos pressionado por empates ruins contra Arábia Saudita e Cabo Verde, resultados que deixaram a equipe sem margem de erro.
Mais grave que a tabela era a sensação de desalinhamento. O time tinha talento suficiente para competir melhor. Valverde, Bentancur, Ugarte, Darwin Núñez e outros nomes importantes formavam um elenco com presença física, qualidade técnica e experiência internacional. Ainda assim, o Uruguai parecia emocionalmente travado e pouco inspirado.
Nos últimos dias, a imprensa internacional noticiou tensão entre jogadores e Bielsa. O ponto central seria a insatisfação de parte do elenco com a intensidade dos treinos, a rigidez das ideias e a falta de adaptação tática. Federico Valverde, um dos nomes mais importantes da seleção, apareceu nesse contexto como figura ligada ao desconforto interno com as exigências do treinador.
Foi uma derrota em um ambiente já rachado.
Quando um treinador como Bielsa tem o grupo completamente comprado por suas ideias, o desgaste físico e mental pode ser aceito como parte do processo. Quando o elenco começa a duvidar dos métodos do seu comandante, isso se torna peso, excesso, e a convicção vira teimosia.
Suárez já havia acendido o alerta
O ruído atual também não surgiu do nada. Em 2024, Luis Suárez deu uma entrevista dura sobre o ambiente da seleção uruguaia sob Bielsa. O atacante, já aposentado da equipe nacional, afirmou que havia jogadores considerando deixar o grupo após a Copa América por causa do tratamento e das condições de trabalho.

Suárez e Valverde atuaram juntos na seleção uruguaia
Suárez citou especialmente o caso de Agustín Canobbio. Segundo ele, Bielsa teria colocado o jogador para fazer exercícios com atletas usados como sparrings, algo que o ex-camisa 9 classificou como falta de respeito.
A fala de Suárez teve impacto porque partiu de uma lenda da seleção, ainda com grande participação e envolvimento com os jogadores convocados, não apenas de um observador externo. Suárez expôs que Bielsa não era questionado apenas por esquema, escalação ou resultado. Era questionado pelo modo como lidava com pessoas.
Bielsa sempre exigiu muito. Isso faz parte da identidade dele. Mas o futebol de seleções não permite o mesmo ritmo de trabalho de um clube. Há menos tempo de treino, menos margem para desgaste diário e, muitas das vezes, mais necessidade de negociação com lideranças. Haja visto o que aconteceu com Ancelotti na Seleção Brasileira com a convocação de Neymar. No Uruguai, essa “negociação” parece ter sido inexistente.
Muslera virou o erro mais caro
Dentro desse cenário, a convocação de Muslera ganhou ainda mais peso. Não era apenas uma escolha técnica do treinador. Era mais uma teimosia do treinador argentino, quase uma decisão política de Bielsa.

Muslera ficará marcado por mais uma Copa com falhas
O goleiro tinha história enorme com o Uruguai, mas nunca foi unanimidade por sua segurança embaixo das traves, pelo contrário. Apesar de ter participado de sua quinta Copa do Mundo em 2026, o goleiro uruguaio sempre foi lembrado por falhas bisonhas e por ter sido responsável por resultados frustrados da Celeste Olímpica.
Ao chamá-lo de volta, Bielsa transformou Muslera em uma aposta pessoal. Se desse certo, seria vendido como mais uma prova da coragem do treinador em desafiar o senso comum. Como deu errado, virou o exemplo mais evidente de um técnico que parecia mais fiel à própria convicção do que à realidade.
A falha contra a Espanha foi o ponto final. Muslera errou em mais um jogo decisivo em que o Uruguai não tinha margem para falhas. Após perceber que precisava agir para tentar corrigir a rota, Bielsa o tirou no intervalo. A substituição funcionou quase como uma confissão em campo. Não precisava dizer “errei” na entrevista. A troca disse isso.
O problema é que o preço foi pago também pelo jogador.
Muslera foi convocado contra resistência pública, colocado sob pressão e retirado no intervalo quando a decisão desmoronou. Bielsa tentou salvar a partida, mas também expôs o atleta que havia escolhido proteger.
Segundo o jornal “Ovación”, Muslera foi o único jogador a dar entrevista no pós-jogo.
Eu disse no vestiário, quando eles estavam um pouco mais calmos. Sinto muito por não ter feito uma boa Copa do Mundo. Pedi desculpas para eles e para todo o povo uruguaio, embora isso não seja suficiente. Agora é hora de estar com as pessoas mais próximas a mim, de recuperar minhas forças. Essa é a natureza deste esporte, essa é a natureza desta posição; às vezes ela te dá muito, e às vezes ela te tira muito Fernando Muslera
A carreira de Bielsa sempre viveu nesse limite
Nada disso é completamente novo na trajetória de Bielsa. Sua carreira é marcada por trabalhos brilhantes e rupturas polêmicas iguais ou até maiores que seus resultados.
Na Argentina, chegou à Copa de 2002 com uma seleção fortíssima, campeã das Eliminatórias sul-americanas e tratada como candidata ao título. O time tinha nomes como Batistuta, Verón, Ortega, Crespo, Zanetti, Sorín e Simeone. Caiu na fase de grupos. A eliminação virou trauma nacional e segue como um dos maiores fracassos argentinos em Mundiais.
No Chile, em 2010, Bielsa construiu uma seleção intensa, corajosa e moderna. O time jogava com pressão, agressividade e assumia riscos. Encantou, classificou-se às oitavas e caiu para o Brasil nos pênaltis. Ali, o personagem Bielsa saiu maior porque o Chile parecia ter encontrado uma identidade.
No Athletic Bilbao, levou o time às finais da Liga Europa e da Copa do Rei na temporada 2011/12. O futebol era vibrante, físico e ousado. Jogadores como Iker Muniain, Fernando Llorente e Javi Martínez falaram em diferentes momentos sobre a intensidade e a obsessão do treinador. Havia admiração, mas também espanto. Bielsa era visto como alguém que vivia o futebol em um nível quase impossível de acompanhar.
No Leeds, virou ídolo. Recolocou o clube na Premier League, transformou jogadores e deixou uma marca profunda. Kalvin Phillips é talvez o exemplo mais forte: passou de promessa local a jogador de seleção inglesa em um processo diretamente ligado ao trabalho do argentino.
Mas até no Leeds houve polêmica. Em 2019, no episódio que ficou conhecido como “Spygate”, Bielsa admitiu ter enviado um funcionário para observar treino do Derby County antes de uma partida da segunda divisão inglesa. O Leeds foi multado em 200 mil libras pela EFL.
No Lille, a passagem foi curta e caótica. Bielsa foi suspenso pelo clube em 2017 após sequência ruim de resultados e um ambiente de forte instabilidade. Mais uma vez, a promessa de revolução terminou antes de se consolidar.
Esse é o padrão: quando dá certo, Bielsa vira gênio. Quando dá errado, é uma “Tragédia Homérica”.
O fascínio dos jogadores também existe
Seria injusto tratar Bielsa apenas como um técnico ultrapassado ou autoritário. Muitos jogadores cresceram com ele e falam do argentino com enorme respeito.
Alexis Sánchez já disse que aprendeu muito com Bielsa e que parte de sua formação como jogador passa pelo trabalho com o técnico no Chile. No Athletic, jogadores destacaram a intensidade, a preparação e o modo como ele os fazia enxergar o jogo. No Leeds, atletas evoluíram fisicamente, taticamente e mentalmente sob um regime que parecia extremo, mas que produziu resultados claros.

Alexis Sánchez
Esse é justamente o ponto que torna Bielsa tão complexo.
Ele, definitivamente, não é um farsante. Não é um técnico sustentado apenas por discurso. Há método, há conhecimento e há impacto real. O problema é que seu modelo exige adesão quase total. Quando os jogadores acreditam, o time corre, pressiona, compra a ideia e transforma o sacrifício em identidade. Quando o grupo começa a questionar, o sistema perde a base.
No Uruguai, a impressão final é que a crença acabou antes da Copa acabar.
O fim provável de uma era
A decisão de convocar Muslera pode ficar como o último grande erro de Bielsa em Copas.
Bielsa bancou uma escolha impopular, viu a aposta desabar jogo após jogo e terminou obrigado a substituir o próprio jogador no intervalo da partida mais importante. Ao fazer isso, de certa forma reconheceu que havia errado.
Para um treinador cuja carreira sempre foi construída sobre convicções, essa imagem passa uma mensagem de fim de ciclo. Pelo menos, no comando da seleção uruguaia isso já é quase certo.
Mas soa como um fim de carreira. Talvez Bielsa ainda treine. Talvez apareça em outro projeto, talvez aceite uma seleção menor, talvez seja procurado por algum clube seduzido pelo mito. Mas é difícil imaginar que, depois desta Copa, ele ainda tenha espaço no mais alto nível com o mesmo poder de imposição.
O Bielsa personagem seguirá gigante. O Bielsa professor continuará influente. O Bielsa mito ainda será citado por treinadores, jogadores e estudiosos.
Mas o Bielsa técnico de elite pode ter chegado ao fim.
E, se essa for mesmo sua última grande imagem, ela será cruelmente coerente com sua história: um treinador brilhante, radical, fiel às próprias ideias até o limite, derrotado justamente por uma decisão que só ele parecia disposto a bancar.

