
Italo Ferreira
Direto do meu escritório na praia, mais um episódio da série que explica economia através do surf e surf através da economia.
Em dezembro, o CT encerra sua temporada em Pipeline, no Havaí, e ao mesmo tempo, em todo o Brasil, investidores encerram o ano revisando suas carteiras, calculando ganhos e perdas, planejando o próximo ciclo. São dois mundos completamente diferentes, mas a lógica que governa os dois é exatamente a mesma.
Deixa eu te explicar como funciona.
Nem todo mundo pode entrar
Pipeline não é uma onda para qualquer surfista, não é questão de coragem, é questão de preparo. Surfistas que entram em Pipeline sem ter o nível técnico adequado não estão sendo corajosos, estão sendo imprudentes. O recife de coral a menos de um metro de profundidade não tem piedade de quem não está pronto para surfar aquele mar.
O mercado financeiro funciona igual, existem investimentos que não são para qualquer perfil, não porque sejam proibidos, mas porque o nível de volatilidade e de risco exigem um conhecimento que nem todo investidor tem ainda. Ações de empresas pequenas e pouco líquidas, derivativos, fundos alavancados, são instrumentos poderosos, mas que nas mãos erradas, fazem com que a pessoa perca muito dinheiro.
A pergunta que todo investidor precisa fazer antes de entrar num investimento é a mesma que todo surfista faz antes de entrar em Pipeline: Eu estou preparado para isso?
O risco que vale a pena
Agora, o outro lado da moeda: quem está preparado e mesmo assim não entra, também está cometendo um erro.
Existe no surf um tipo de surfista que passa anos treinando, estudando, se preparando, mas quando chega a hora de entrar numa onda grande, fica na areia olhando. Por medo, por excesso de cautela e por não conseguir dar o passo depois de tanto preparo.
No mercado financeiro, esse perfil é o investidor que fica para sempre na poupança com dinheiro que poderia estar trabalhando em investimentos mais eficientes. Não porque o risco seja inadequado para ele, mas porque o hábito da segurança absoluta virou uma prisão mental. Mas a inflação não perdoa, corrói o que está parado, o tempo passa e as oportunidades vão embora.
A sessão perfeita não é para sempre
Uma coisa que aprendi surfando é que quando o mar está bom, você aproveita, não fica esperando o mar ficar ainda melhor. Pois ele pode piorar antes de melhorar, e você vai ficar na areia assistindo a onda que poderia ter sido sua. E lembre-se, a dor do arrependimento por não ter aproveitado algo, é muito grande.
No mercado, isso corresponde a uma armadilha chamada market timing (a tentativa de acertar o momento perfeito para entrar ou sair de um investimento), e funciona assim: o investidor espera o preço cair mais antes de comprar, e o preço sobe. Ele espera cair de novo, e sobe mais. No fim, compra no topo porque a euforia de ver todo mundo ganhando dinheiro vence a cautela.
Estudos mostram que investidores que tentam acertar o timing do mercado performam pior do que os que investem regularmente, independente do momento. A onda perfeita raramente aparece, mas a onda boa aparece de vez em quando, e o surfista/investidor disciplinado pega ela.
Pipeline e sua carteira
Em dezembro, os campeões mundiais serão coroados em Pipeline, serão os surfistas que, ao longo de uma temporada inteira, combinaram consistência, coragem e inteligência dentro da água. Não necessariamente os que arriscaram mais, mas sim os que arriscaram melhor.
É assim que se constrói patrimônio também, não num único grande movimento ousado que pode dar tudo certo ou tudo errado, mas em uma temporada de decisões consistentes, bem fundamentadas, com risco adequado para cada momento.
Em dezembro, revise sua carteira como os surfistas revisam a temporada: o que funcionou, o que não funcionou, o que você mudaria, o que vai carregar para o ano seguinte.
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Até a próxima! Ihii!
Pedro Bento
@pedrobento28
