Palmeiras, em voo solo, desafia calendário

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A eliminação inesperada do Flamengo na semifinal mudou mais do que o roteiro da Libertadores. Mudou também o equilíbrio da reta final da temporada brasileira. O que antes era um duelo direto entre dois gigantes submetidos ao mesmo desgaste virou um desafio quase solitário para o Palmeiras.

Durante meses, técnicos, jogadores e dirigentes reclamaram do calendário. Com razão. Mas a verdade é que o problema só mostra sua face mais cruel para quem continua a vencer. E, neste momento, poucos clubes sentem isso tão intensamente quanto o Palmeiras.

A ironia é evidente. O Verdão está sendo “punido” justamente por ser competente. Enquanto os adversários ganham semanas livres para treinar, recuperar atletas e preparar jogos decisivos, a equipe de Abel Ferreira acumula viagens, decisões e preocupações. É o preço do sucesso, mas nem por isso deixa de ser um obstáculo gigantesco.

Nesse cenário, a queda dos comandados de Leonardo Jardim retirou do Rubro-Negro uma carga física enorme. Restou ao Mengo a missão de administrar o impacto emocional da eliminação e concentrar energias exclusivamente no Campeonato Brasileiro. Não é pouco, mas é um cenário incomparavelmente mais confortável do que o vivido pelo rival paulista.

O Palmeiras, por sua vez, terá de travar uma batalha em três frentes. A Libertadores segue a exigir atenção máxima. A Copa do Brasil apresenta uma semifinal complicada diante do novo Vasco de Pedro Emanuel. E o Brasileirão segue vivo, com cada rodada podendo decidir o destino do título.

Não há, portanto, espaço para respirar.

O adversário invisível

Curiosamente, o maior rival do Palmeiras nas próximas semanas talvez nem seja um clube. É o relógio. Quando um time entra em campo a cada três dias, o desgaste deixa de ser apenas físico. A recuperação se torna incompleta. Os treinamentos desaparecem. As correções táticas são substituídas por vídeos e conversas rápidas.

Lesões passam a rondar o elenco. Suspensões ganham peso maior. Qualquer problema individual vira uma ameaça coletiva.

A Data Fifa amplia essa dificuldade. Jogadores convocados retornam desgastados, muitas vezes após longas viagens. E logo são lançados novamente em partidas decisivas que não admitem erros. Enquanto isso, os concorrentes observam de longe. Descansam. Preparam-se. Recuperam seus atletas.

O calendário, portanto, transforma-se em um adversário invisível que entra em campo em todas as competições.

A força mental será decisiva

Se as pernas do Palmeiras serão colocadas à prova, a cabeça dos jogadores também. Isso porque a reta final exige algo raro: competir sob pressão máxima e em diferentes contextos. Em um dia, vale a sobrevivência na Libertadores. No outro, a classificação na Copa do Brasil. Logo depois, três pontos fundamentais no Brasileirão.

Não há tempo para celebrar vitórias nem para lamentar derrotas. É nesse cenário que surgem os campeões.

Mais do que capacidade técnica, o Palmeiras precisará demonstrar resistência emocional. O elenco terá de conviver com o cansaço sem se acomodar. Precisará administrar frustrações sem perder confiança. Terá de aceitar que nem sempre conseguirá apresentar seu melhor futebol e, ainda assim, encontrar formas de vencer.

Abel Ferreira costuma dizer que a temporada é uma maratona, não uma corrida de 100 metros. Agora, seu time entrou nos quilômetros mais dolorosos do percurso.

O peso do privilégio

Há uma leitura interessante nesse contexto. Muitos enxergam apenas a dificuldade. Mas estar vivo em todas as competições nesta altura do ano também representa um privilégio reservado a poucos. O Atlético-MG ainda divide atenções, mas sem o peso da disputa direta pelo Brasileirão.

Finalista argentino da Libertadores, o Estudiantes convive com um calendário muito menos agressivo. O Palmeiras é uma exceção.

E talvez por isso o clube viva a situação mais desafiadora e, ao mesmo tempo, mais desejada do futebol sul-americano: chegar a novembro com chances reais de conquistar tudo.

O calendário será cruel. O desgaste será inevitável. As críticas aparecerão a cada tropeço. Mas, se existe um indicador de grandeza esportiva, ele está justamente aí. Enquanto muitos descansam porque ficaram pelo caminho, o Palmeiras segue a correr porque ainda tem para onde ir.

E, até o apito final da temporada, ninguém terá um caminho mais difícil. Nem mais valioso.



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