
Gabriel Medina – 10
Tem uma história que sempre vem na cabeça quando penso no Gabriel Medina, e não é o backflip de Teahupo’o, não é o choro depois do primeiro título mundial em 2014, é a história de um menino em Maresias, insistindo com um amigo quatro anos mais velho chamado Cauê, para levá-lo para surfar. Sem pai por perto, sem treinador e sem saber que aquela insistência infantil estava prestes a mudar o surf brasileiro para sempre.
Gabriel Medina Pinto Ferreira nasceu em 22 de dezembro de 1993, em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. Cresceu em Maresias, uma das mais tradicionais do surf paulista. Os pais se separaram quando tinha 8 anos, e foi aí que entrou na história um personagem fundamental: Charles, o padrasto que se tornou treinador e que moldou não só o surfista, mas o competidor que Medina se tornaria.
Charles e o método diferente
Charles Saldanha era triatleta e surfista amador, não um ex-profissional ou um guru do surf de alto nível, era um homem que enxergou algo diferente num menino e decidiu que ia extrair o máximo daquilo. O método dele era simples e brutal: toda vez que Medina começava a dominar uma categoria, Charles o inscrevia numa categoria acima, contra atletas mais velhos e experientes. Sem zona de conforto.
Aos 11 anos, Medina venceu seu primeiro campeonato de alcance nacional, em Búzios, e menos de dois anos depois de começar a surfar de verdade. Em 2009, aos 15 anos, tornou-se o surfista mais jovem da história a vencer um evento major do QS, o circuito de acesso ao CT e no mesmo ano, assinou contrato profissional com a Rip Curl. Com apenas 15 anos, Medina já era profissional.
O primeiro brasileiro a vencer na Austrália
A carreira de Medina no CT foi uma sequência de primeiros, primeiro brasileiro a vencer uma etapa na Austrália em condições de backside (surfando de costas para a onda, o que é tecnicamente muito mais difícil), primeiro brasileiro a liderar o ranking mundial por mais tempo na história. E em 2014, aos 20 anos, o mais importante de todos: primeiro brasileiro campeão mundial de surf.
A conquista do título em 2014 aconteceu de um jeito cinematográfico, Medina estava na água disputando uma bateria quando Alejo Muniz, também brasileiro, venceu Mick Fanning em uma bateria simultânea, resultado que matematicamente dava o título a Medina. Mas ele não sabia ainda, quando saiu da água e entendeu o que tinha acontecido, abraçou Filipe Toledo, com quem disputava a bateria e caiu no choro.
Naquele ano, foi eleito o Laureus de Esportista Revelação do Ano (o Oscar do esporte mundial), e o atleta de Maresias estava no mesmo palco de Cristiano Ronaldo, LeBron James e Roger Federer.
Os outros dois títulos e a evolução constante
Se o primeiro título foi explosão, o segundo, em 2018, foi confirmação. Medina fez uma temporada dominante, venceu três etapas e chegou ao Pipeline precisando de um resultado específico para ser campeão. Conseguiu. O Brasil tinha seu segundo título mundial em quatro anos, com o mesmo surfista.
O terceiro veio em 2021, numa temporada diferente, mais madura e mais estratégica. Medina surfava diferente de 2014, pois tinha menos instinto puro e mais leitura de situação. Com 17 vitórias no CT acumuladas na carreira, tornou-se o brasileiro com mais triunfos na elite do surf mundial da história. Desde 2015, nenhum outro surfista venceu mais etapas do Championship Tour que ele.
Nas Olimpíadas de Paris 2024, disputadas nas ondas de Teahupo’o, protagonizou um dos momentos mais marcantes do surf olímpico: obteve a maior nota individual da história da modalidade nas Olimpíadas e saiu com a medalha de bronze.
O backflip que deixou todo mundo de queixo caído
Não dá para falar de Medina sem falar daquele backflip. Em 2016, no Rio de Janeiro, ele pegou uma onda, foi para o ar, deu uma volta completa para trás, uma manobra que não existe na tabela de julgamento do CT porque nunca tinha sido feita antes em competição, e aterrisou de pé. Os árbitros não sabiam o que dar de nota, o mundo do surf ficou sem palavras.
Temporada 2026:
Aos 32 anos, Medina chega na reta final de 2026 numa posição que não é a ideal, resultados irregulares ao longo da temporada o deixaram fora da briga pelo título. Mas Pipeline está chegando, e Medina em Pipeline é diferente, já venceu lá, já protagonizou finais históricas e já mostrou que naquela onda, ele sabe o que está fazendo.
O legado que já está garantido
Independente do que acontecer daqui até o fim de 2026, a história de Medina já está escrita. Foi o pioneiro, e quando você é o primeiro a fazer algo, ninguém pode tirar isso de você. Primeiro brasileiro campeão mundial, primeiro a liderar o ranking por mais tempo na história e primeiro a fazer um backflip em competição em Teahupo’o.
O garoto de 6 anos que pedia para um amigo levá-lo para surfar em Maresias não fazia ideia do que estava começando naquele momento. Mas o surf brasileiro sabe muito bem o que aconteceu depois.
Até a próxima! Ihii!
Pedro Bento
@pedrobento28
